Como envolver o leitor

Um dos pontos principais que um escritor precisa prestar atenção é se está (ou não) envolvendo o leitor. O mesmo vale para filmes, onde ...


Um dos pontos principais que um escritor precisa prestar atenção é se está (ou não) envolvendo o leitor. O mesmo vale para filmes, onde é preciso envolver o expectador. De um jeito ou de outro, o criador da estória quer prender a atenção de quem o prestigia, e isso se torna ainda mais importante no mundo moderno em que vivemos, em que somos alvo de estímulos constantes e ininterruptos.

Existem várias formas de envolver o leitor, e a escolha de qual delas melhor se adapta à estória contada depende do estilo do escritor, do objetivo de sua obra e de onde ele quer chegar com ela. Não existe uma fórmula mágica, mas existem dicas, e espero que estas sejam úteis a quem se vê diante de uma folha em branco e um livro todo para começar.
(Clique nos nomes dos livros que estão em azul para maiores informações sobre eles).

Envolver pelo intelecto


Uma possibilidade é atrair a atenção do leitor através de um enigma ou de um problema que precisa ser solucionado. Com isso, o escritor não pode entregar todas as pistas ou todos os detalhes de uma vez só, assim como também não pode demorar demais a fornecer as respostas e, além disso tudo, tais respostas precisam fazer sentido e serem surpreendentes. Ou seja, não é difícil perceber que este tipo de envolvimento requer muito trabalho do escritor, assim como exige um planejamento prévio da estória e uma estrutura muito bem construída. Como exemplos, temos: "O Médico e o Monstro", de Robert Luis Stevenson e o mistério ao redor de Mr. Hyde; "A Menina Submersa", de Caitlín R. Kiernan e sua loucura; os crimes complexos de desvendar de Sherlock Holmes e a suspeita vida imortal de "O Retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde.

Envolver pelo instinto


Atrair a atenção do leitor através de instinto faz o escritor apelar para nossos mecanismos de sobrevivência. O leitor se sente na pele das personagens quando elas passam por algum tipo de perigo. E, quanto maior este último, maior será a atenção do leitor, porque ele não quer apenas saber que as personagens sobreviveram, ele também precisa saber como elas sobreviveram. Se este "como" for mal escrito, o leitor perderá o interesse no mesmo  instante. As personagens precisam passar por dificuldades e superá-las com astúcia. Como exemplos, temos: Edgard Allan Poe e suas estórias assustadoras; "Metamorfose" de Franz Kafka e o esquisítissimo caso de um homem que acorda no corpo de uma barata; "Filhos do Fim do Mundo" de Fábio M. Barreto e a aterrorizante estória de crianças com menos de um ano que morreram em todo o mundo; e "O Iluminado" de Stephen King que dá medo até nos mais corajosos.

Envolver pela emoção


Qualquer estória tem um quê de emoção envolvida, mesmo nos exemplos anteriores deste post. A diferença, neste caso, é que o escritor optou por colocar os sentimentos e as sensações das personagens em primeiro plano. Para que o leitor se envolva 100% com a estória, ele precisa, antes de tudo, se identificar com as motivações da personagem. Se eu não me identifico, não me emociono. Por isso, para que este tipo de envolvimento seja satisfatório, o escritor depende de variáveis que ele não controla, como o background familiar do leitor e suas experiências de vida. Como exemplo temos: "As Horas" de Michael Cunningham, meu livro favorito daqui até para sempre; "Mrs. Dalloway" da divina Virgínia Woolf e suas angústias escondidas; "Orgulho e Preconceito" de Jane Austen com sua Elizabeth cheia de camadas; e "As Vantagens de Ser Invisível" de Stephen Chbosky e o melancólico e lindo Charlie.

Quando há os três tipos de envolvimento = Uau!


Se a obra reúne os três tipos de envolvimento - emoção, intelecto e instinto - pode ser desastroso ou maravilhoso, dependendo do escritor. Separei quatro exemplos de obras que misturam estes elementos de forma exemplar: 
"Não me Abandone Jamais" de Kazuo Ishiguro: há um pano de fundo distópico, cheio de perguntas para o intelecto; há o risco de vida de algumas personagens, que acendem nosso instinto de sobrevivência e há a busca deles por amores perdidos, que envolvem emoção.
"A Crônica do Matador do Rei" de Patrick Rothfuss e a saga Harry Potter de J. K. Rowling: estes livros servem como exemplos para o gênero Alta Fantasia. O leitor vai encontrar riscos de vida, segredos e mistérios e emoções, o tempo todo. Sou fã com todo o meu coração ruivo.
"O Mundo Explicado por T. S. Spivet" de Reif Larsen: eu amo a estória do garotinho Spivet, um cientista e gênio mirim (intelecto) que foge de casa e cai no mundo sozinho (instinto) em busca do seu sonho (emoção).

E você, se envolve mais facilmente por qual tipo?

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6 comentários

  1. Envolver o leitor realmente não é uma tarefa fácil! Gostei das suas colocações! Ótimo post! :)

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  2. Eu só acho que a escritora de A Menina Submersa pecou um pouco nisso. Eu estava envolvida, de fato, pela loucura de tudo, mas chegou em ponto que tudo estava TÃO abstrato, que ela me perdeu. Eu só queria terminar logo o livro para saber a conclusão, mas já não estava mais imersa na história. Quando você se afasta DEMAIS do concreto e explicativo, fica difícil manter o leitor.
    De resto, apesar de gostar de livros de todas as categorias que colocou aqui, acho que os meus preferidos estão na última; eu acho o livro realmente ótimo quando ele consegue reunir tudo.
    Ainda estou pra ler O Nome do Vento, mas a preguiiiiiça hahahaha

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    1. O lance com "A Menina Submersa" é meio ambíguo mesmo. Eu curti a parte abstrata porque, como psicóloga, achei que ela descreveu muito bem um surto, de um jeito respeitoso e poético. Mas precisei de um tempo p/ digerir.
      E a senhorita devia perder esta preguiça e ler "A Crônica do Matador do Rei", é maravilhoso! <3

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  3. Adorei essas categorias, não tinha parado para pensar nelas. Eu gosto mais de misturar intelecto e psicológico (que poderia ser emoção?). Acho que fazer o leitor experimentar uma só coisa acaba ficando chato em certo momento, né. Bom mesmo é quando a gente consegue fazer o leitor sentir um monte de coisa, porque acho que abarca mais a realidade e é mais fácil de a pessoa se identificar. Adorei a postagem, tava com saudade desse tipo de assunto aqui! :) Acho que você deveria voltar com aquela coluna de escrita!

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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