Sugestão de Leitura | As Horas, de Michael Cunningham

É difícil dizer "este livro é meu preferido" sem sentir uma pontada de dor por todos os outros livros que ficaram de fora da ...

É difícil dizer "este livro é meu preferido" sem sentir uma pontada de dor por todos os outros livros que ficaram de fora da lista. Porém, no caso de "As Horas", de Michael Cunningham, digo com segurança e tranquilidade que está na minha lista de Favoritos Para Sempre.

Tudo começou com meu TCC da faculdade de Psicologia, lá em 2007. Escolhi um tema ("A Síndrome do Pânico e a angústia de desamparo em Freud") e, para ilustrar meu ponto-de-vista, me apoiei em Clarice Lispector e o filme baseado no livro "As Horas". Foi um TCC poético, melancólico e psicanalítico, do jeitinho que eu gosto.

O livro narra um dia da vida de três mulheres em contextos sociais e históricos distintos, e os capítulos revezam-se entre as três. A primeira mulher é Virgínia Woolf (*faz uma reverência respeitosa*) e seu cotidiano em uma casa isolada no interior de Londres no final do século 19. A segunda mulher é Laura Brown e sua vida na Califórnia dos anos 50. E a terceira mulher é Clarisse Vaughn, editora que vive em Nova York nos anos 2000.

Nas partes reservadas à Virgínia Woolf, Michael Cunningham conta como teria sido seu último dia de vida antes de cometer suicídio. Ele se baseou em documentos históricos e biografias para compor esta ficção e, para minha alegria, ao final do livro ele menciona todas as fontes de pesquisa que utilizou. 

Laura Brown é uma típica dona-de-casa dos anos 50 no pós-Guerra. O relato do seu dia consiste no preparo da festa de aniversário para o seu marido, enquanto cuida do filho pequeno e está grávida do segundo filho.

Para Clarisse Vaughn, seu dia gira em torno da preparação de uma festa em homenagem a seu amigo de longa data e ex-namorado, Richard. Poeta, ele acabou de ganhar um prêmio importante pela sua obra como poeta. Ele tem AIDS em estado terminal e tornou-se homossexual. Clarisse também, e casou-se com Sally.

O fato de elas estarem às voltas com uma festa não é à toa: a obra Mrs. Dalloway, de Woolf, é o que conecta as três mulheres. Mrs. Dalloway é uma anfitriã nata, no livro. (Falei mais sobre este livro de Virgínia Woolf neste post). O livro é lido à exaustão por Laura e Mrs. Dalloway é o apelido que Richard deu à Clarisse. Não é preciso ler Mrs. Dalloway para entender a estória, pois Michael fez a gentileza de colocar os trechos relevantes ao longo da narrativa.

As três mulheres tem diversos pontos em comum e, às vezes, elas parecem ser a mesma pessoa. Elas são sensíveis e questionam continuamente as escolhas que fizeram ao longo da vida, sentindo que poderiam ter sido e vivido mais. Elas são frágeis e, ao mesmo tempo, fortes, e vêem a vida com uma mistura de euforia e tristeza.

A profundidade das três mulheres está nas coisas cotidianas. Virgínia manda sua cozinheira buscar chá em Londres só para provocá-la, Laura joga um bolo de aniversário inteiro no lixo porque achou que ele não ficou perfeito, Clarisse não sabe que flores comprar para o dia especial de Richard: estas tarefas tão simples escondem camadas e camadas de sentimentos, reflexões e percepções delas.

O livro tem uma passagem muito intensa envolvendo Clarisse e Richard que me faz chorar só de lembrar. E, quando o livro terminou, eu amava as três mulheres como se elas fossem pedaços de mim. E talvez sejam mesmo.

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