Antes de dormir

Você dormia um sono profundo, como sempre são seus sonos, e eu assistia a ele e a você deitada ao seu lado. Estava tentando acalmar minha...

Você dormia um sono profundo, como sempre são seus sonos, e eu assistia a ele e a você deitada ao seu lado. Estava tentando acalmar minha respiração e adormecer, sincronizando as minhas inspirações com as suas. Sinto inveja de como você dorme como se não houvesse um mundo todo lá fora, atribulado e esquisito. O quarto de hotel estava eternamente paralizado em sua escuridão e eu me perdia, aos poucos, naquele nada. 
Procurei sua mão para me tranquilizar, porque eu precisava sentir que você estava ali. Ao menor sinal de toque, apesar da profundidade do seu sono, você o percebeu e reagiu, apertando meus dedos com gentileza. Era como se você dissesse "Estou aqui, está tudo bem", sabendo como demoro para deixar meus pensamentos de lado e adormecer.
Meu coração se apertou ainda mais, porque adquiri o péssimo hábito de acreditar que a felicidade acaba. Também aprendi a pensar como isso vai acontecer - quando, como, onde o fim irá chegar. Poderia me fazer de vítima e usar o famoso discurso "Foi a Vida que Fez isso Comigo", mas soaria ridículo e injusto. A vida não faz questão de ser unânime para ninguém e, assim como eu vivi a minha, todo mundo tem sua própria tragédia.
Prefiro assumir que sou meio besta de vez em quando e fiquei ali, tentando enxergar você na escuridão do quarto e criando vários cenários inexistentes que me oprimiam o peito.
Aquele quarto era, ao mesmo tempo, impessoal e familiar. A combinação de estranheza e de conforto me deixou ainda mais absorvida nas minhas ruminações, enquanto tentava me ajeitar em travesseiros diferentes e lençóis de textura e cheiro que eu não estava acostumada. Se estivesse em casa, poderia ter andado pelos cômodos e olhado nossas fotos, me assegurando de que aquele amor era real. Era real, sim.
Parece que você sentiu que eu estava, aos poucos, indo para aquele caminho que não gostamos. De repente, você acordou e me abraçou, me trazendo para mais perto de você e adormecendo novamente no segundo seguinte. Sorri, aliviada, e me concentrei em pensar nas coisas boas, em sentir o contato do meu rosto com o seu ombro e em ouvir o barulho da chuva do lado de fora. Vieram, aos poucos, não cenários criados, e sim, memórias: lindas e verdadeiras. E meu coração se afrouxou um pouco.
Não lembro exatamente em que momento ocorreu a transição, mas percebi que eu adormecera feliz e tranquila, como raramente acontecia.

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3 comentários

  1. Oi, moça!

    Sabe quando seu peito aquece e você sorri? Então, tô assim nesse momento <333 Que texto fofo, fluído e sensível! - e, ao mesmo tempo, tão verdadeiro e real! Simplesmente lindo demais! Tava com saudade das suas palavras!

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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    1. Fico tão contente quando você gosta dos meus textos "confessionais", porque você é mestra na arte de escrevê-los e admiro-te muito, como sabes. Love!

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  2. Esse teu texto ficou muito bom! Parabéns, gostei muito, apesar de ser bem profundo ele é bem fluido e fácil de ler, além de ser bem envolvente.

    Abraços,

    Blog Decidindo-se \o/

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