Já Li #230 - Os Relatos da Guerra das Tempestades, Vol. 3 - Sacramentadora, de Brandon Sanderson

 

Um escritor que te faz ler 1531 páginas e, ainda assim, no final do livro, te deixa querendo mais, só pode ser o Rei. Eu falo para vocês em todo post que Brandon Sanderson é o Rei da Fantasia e continuarei falando até você acreditar. A resenha de hoje é de "Sacramentadora".

Para ler as outras resenhas desta série, navegue pelos links abaixo:
Os Relatos da Guerra das Tempestades, Vol. 1 - O Caminho dos Reis
Os Relatos da Guerra das Tempestades, Vol. 2,5 - Edgedancer
Um guia sobre o universo Cosmere de Brandon Sanderson

Eu super vou partir do princípio que, se você chegou até aqui, é porque leu os outros volumes desta série literária, então vamos direto ao ponto.
A sensação que fiquei, quando terminei a leitura, foi de que o personagem principal da vez é Dalinar e que ele é a principal engrenagem para que todo o enredo aconteça neste terceiro volume. Ainda temos os capítulos e interlúdios intercalados entre diversos personagens como sempre, mas a sensação que ficou em mim é de que Dalinar é a cola que une todos eles.
Neste volume, Dalinar resgata todas as memórias que haviam sido apagadas pela Mãe da Noite, com efeitos devastadores para ele. Ele se lembra não apenas do nome de sua esposa, como também que foi o causador de sua morte. Ele se lembra de como era violento, cruel e até mesmo "maléfico" quando era conhecido como Espinheiro Negro, e percebe o contraste com sua atual personalidade, que busca a união de Roshar através da diplomacia, e não da espada. Ele, inclusive, se lembra de quão pouco se importava com seus filhos quando eles eram mais jovens, sobretudo Renarin. E ele também se lembra que tornou-se um alcoolista após a morte de sua esposa, afundando cada vez mais no vício, o que o leva a uma recaída na bebida.
Sanderson propõe um giro de 180 graus em Dalinar: até aqui, Sanderson o construiu como um anti-herói / quase herói, um personagem incrível e digno de admiração. Porém, quando suas memórias retornam, o leitor se vê diante de uma pessoa horrível, o que nos desperta sentimentos muito conflitantes a respeito de Dalinar - e eu amei cada segundo.

Os Esvaziadores e a grande Desolação, enfim, chegaram, mas ambos guardam segredos que são a essência do enredo e, por isso, não vou dar spoilers. Mas posso garantir que aquela pulga atrás da orelha que tínhamos sobre os parshemanos (Moldados) - se eles são os vilões ou os mocinhos - afinal se resolve, mas não do jeito que esperávamos. Sanderson pega a noção de bem x mal, heróis x vilões, e a joga no lixo. A batalha por Roshar é um grande "todo mundo está certo, mas todo mundo está errado também" e não existe o maniqueísmo que costumamos ver em livros de fantasia. Também amei cada segundo dessa ambiguidade moral que Sanderson nos traz de maneira tão orgânica e tão genial. Digo e repito caso você não esteja prestando atenção: REI.
Descobrimos porque os Cavaleiros Radiantes traíram a humanidade. Recebemos informações mais completas sobre a origem e o paradeiro dos Arautos. A história vai tomando forma e Sanderson vai, aos poucos, construindo a profundidade da narrativa para os livros que estão por vir. Quando parece que a história vai terminar, percebemos que ela só está no começo.

Como pontos menos interessantes de leitura, ressalto:
Achei a crise existencial de Shallan um pouco repetitiva. Ela, dividida entre suas três personalidades - Shallan, Véu e Radiante - se vê com dificuldades de integrar todas elas em uma só identidade. E Adolin, para mim, neste volume, é um mero acessório de Shallan, com o único objetivo na trama de trazê-la de volta à realidade, o que é um desperdício de um bom personagem. Sanderson poderia ter realmente construído um triângulo amoroso entre Véu/Shallan - Kaladin - Adolin para dar mais peso a essa narrativa.
E gostaria de ter entendido melhor o que aconteceu com Renarin. O espreno dele foi corrompido, mas para mim não ficou claro se ele passou para o lado de Odium ou não.

Temos capítulos super interessantes e imaginativos passados no reino de Shadesmar (o Reino Cognitivo), onde os esprenos vivem. O contraponto de Kaladin em Shadesmar é muito bem construído. Aqui também senti que Sanderson está preparando o terreno para alguma reviravolta dos esprenos, pois eles tem muito foco no enredo do terceiro volume. Vem coisa aí, tenho certeza.
Temos detalhes sobre a história de vida de Syl! Estou cada vez mais e mais apegada nela.
Temos o Assassino de Branco também esfregando dilemas morais na nossa cara sem dó, assim como Moshar - dois personagens conflitantes e polêmicos que, de alguma maneira torta, aprendemos a amar. 

E temos Rocha protagonizando a cena mais linda deste livro, lá quase no final, quando Kaladin está sucumbindo aos Moldados e perto de morrer. Eu dei um gritinho que assustou meu marido, eu chorei, eu fechei o livro e fiquei contemplando o horizonte por alguns minutos. Ponte Quatro é vida!

No final das contas, a mensagem que fica é: a Desolação é o menor problema de Roshar, já que eles precisam lidar com a corrupção de cada uma das pessoas envolvidas na história, todas elas no limiar da moralidade e da ética, sem saber ao certo se irão para o lado de Odium ou de Honra. Leitura sublime e o melhor livro da série até aqui, sem dúvidas. Que venha "Ritmo da Guerra", estou pronta!

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 4/5

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