Já Li #75 - Trilogia Radch Imperial, vol 1: Justiça Ancilar, de Ann Leckie

No post de hoje, a resenha é dedicada ao primeiro volume da trilogia de ficção-científica "Radch Imperial", chamado "Jus...


No post de hoje, a resenha é dedicada ao primeiro volume da trilogia de ficção-científica "Radch Imperial", chamado "Justiça Ancilar" e escrito por Ann Leckie. Ann Leckie, uma das poucas mulheres escritoras do gênero, escreveu uma obra digna de Ursula K. Le Guin.

Ann Leckie começou escrevendo romances para uma revista adolescente americana chamada "True Confessions" e, paralelamente, enviava seus contos de ficção-científica para editoras que, infelizmente, eram sempre recusados. Muitos anos depois, entediada em casa depois uma longa licença maternidade, Ann resolveu reescrever seus contos transformando-os em uma trilogia e, assim, nasceu a premiada trilogia "Radch Imperial"

A trilogia de Ann Leckie é uma space opera, ou seja, um subtipo de ficção-científica que prioriza guerras espaciais, drama e batalhas interplanetárias. Fiz um post dedicado aos subtipos de ficção-científica e, nele, falo mais sobre space opera. Navegue: Os 13+ Tipos de Ficção-Científica

O protagonista da trilogia é Breq, uma Inteligência Artificial que se desconectou da nave a qual pertencia e resolveu se vingar de sua governante. Toda a estória se passa em um futuro muito distante, onde as Inteligências Artificiais (chamadas de ancilares) são usadas como soldados, ao lado de humanos. 

O Império Radchaai, que domina o Universo com os ancilares, não faz distinção de gênero e, por isso, todas as personagens são femininas, inclusive as ancilares. Alguns indivíduos do Império Radchaai podem escolher ser do gênero masculino e sinalizam tal escolha a partir das vestimentas que usam. No entanto, nem sempre a escolha de gênero é clara e, por isso, a regra geral é valer-se dos pronomes femininos. Neste sentido, a leitura me lembrou bastante de "A Mão Esquerda da Escuridão", de Ursula K. Le Guin, onde também não há distinção de gênero.

Uma das naves do Império Radchaai, a Justiça de Toren, está desaparecida. Breq, fugindo da nave e do controle de sua mente, encontra a oficial Seivarden em um planeta de gelo e, juntas, elas precisam lutar pela sobrevivência. Enquanto Breq busca vingança, a narrativa fornece alguns flashbacks e, neles, sabemos o que aconteceu com Breq dezenove anos antes. No passado, a Justiça de Toren estava se preparando para expandir o Império Radchaai e invadir o planeta Shis'urna.

Entre idas e vindas no presente e no passado de Breq, o leitor, aos poucos, descobre porque a ancilar se rebelou contra o Império. Breq descobriu que Anaander Mianaai, a Imperatriz, estava em conflito consigo mesma. Anaander fez várias cópias de si mesma, espalhando-as por todo o Império. Estas cópias de Anaander comunicam-se em tempo real entre si, através da mesma tecnologia que permite que todas as ancilares estejam conectadas. No entanto, ocorre uma cisão em Anaander e duas forças opostas lutam: algumas Anaander querem manter o Império, enquanto outras querem destruí-lo.  Breq, então, começa, gradativamente, a desconectar-se da matriz da Inteligência Artificial e resolve se aliar à Anaander que quer destruir o Império Radchaai. 

O grande conflito da obra é que Breq quer se aliar a Anaander, ao mesmo tempo que quer destroná-la. Sua maior dificuldade é saber diferenciar quais são as Anaander que estão ao seu lado e quais são as Anaander que querem matá-la. A estória paralela, de Seivarden, serve como apoio às atitudes de Breq, bem como a uma maior contextualização do universo criado nesta space opera.

A narrativa é confusa mas, aos poucos, ganha ritmo e forma. Ann Leckie construiu uma ficção-científica robusta e complexa, com vários desdobramentos políticos e sociais. Também por causa destes desdobramentos ela me lembrou "Os Despossuídos", de Ursula K. Le Guin. Em vários momentos do enredo, o momento presente com Seivarden me pareceram irrelevantes mas, conforme o final do livro se aproximava, alguns elementos até então perdidos começaram a fazer sentido. 

A Editora Aleph, responsável pela publicação da trilogia aqui no Brasil, disponibilizou um infográfico que ajuda bastante na compreensão dos elementos desta ficção-científica, que pode ser visto aqui.

Além da criação de um sistema muito sólido, acredito que o grande trunfo de Ann Leckie foi o de dar vida, identidade e personalidade à uma Inteligência Artificial, de forma que o leitor se apegue a ela e se vincule às suas motivações. Breq nada mais é do que uma máquina, mas me vi torcendo por sua independência e por sua vingança, completamente esquecida de que ela é uma ancilar. 

De todos os subtipos de ficção-científica, space opera não é o meu preferido. No entanto, recomendo a leitura de "Justiça Ancilar", pois acredito que Ann Leckie continuará uma escola "fundada" por Ursula K. Le Guin e que estava carente de escritoras que a levassem adiante. 

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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