Já Li #52 - A Odisseia de Penélope, de Margaret Atwood

"O mito de Penélope" foi escrito, originalmente, na Odisséia de Homero, escrito na Grécia Antiga no século VIII a.C. Mais de ...


"O mito de Penélope" foi escrito, originalmente, na Odisséia de Homero, escrito na Grécia Antiga no século VIII a.C. Mais de 28 séculos depois, Margaret Atwood revistou este clássico, dando sua própria versão aos fatos, criando o conto resenhado deste post.

Resumindo o mito de Penélope para melhor entendimento do conto:
Penélope esperou seu marido, Ulisses, por vinte anos, enquanto ele saía em aventuras e descobertas pelo mundo, descritas na Odisséia de Homero. Ulisses enfrentou monstros marinhos e a ira de deuses, além de se relacionar com uma centena de mulheres. Penélope, confinada em seu castelo, só chorava e declinava as propostas de seus pretendentes, crentes que Ulisses tinha morrido. Ela dizia que desposaria um deles após terminar a mortalha de seu sogro e, assim, ela tecia durante o dia e desfazia o trabalho durante a noite, para não ter que casar-se com outro homem. Vinte anos depois, Ulisses retorna disfarçado de mendigo, para descobrir se sua esposa continuava fiel. 

Em 2005, Margaret Atwood foi convidada para a antologia "Canongate Myth Series" (não publicada em português). O projeto propunha a revisitação dos mitos gregos clássicos através de escritores do mundo todo. Atwood, então, escolheu escrever "A Odisseia de Penélope".

No conto, a narrativa é contada em primeira pessoa, do ponto-de-vista de Penélope. Já morta e, agora, no século 21, Penélope está nos campos de Hades, ao lado de todas as figuras presentes na Odisséia de Homero. Penélope relembra todos os fatos de sua vida e os narra como se escrevesse um diário.

No início, ela diz que a relação com seu pai, Ícaro, foi conturbada pois ele tentou afogá-la quando criança. Sua mãe, Periboea, uma ninfa do mar, foi completamente ausente em sua criação. Penélope diz que os vinte anos de choro ininterrupto são culpa das suas origens aquáticas, pois ela sentia que poderia chorar pelo resto da vida sem que suas lágrimas secassem. Originalmente, na Odisséia de Homero, nenhum background de Penélope é oferecido, colocando-a numa posição completamente coadjuvante no mito. Atwood tenta "empoderá-la", dando voz às suas experiências e traumas.

"Em outras palavras, ocorria a tradicional guerra familiar para ver quem mandava mais. Todos concordavam num ponto: não era eu." (A Odisseia de Penélope, de Margaret Atwood)


Ao completar quinze anos, os pretendentes disputam a tradicional corrida para conquistar a mão da princesa. Penélope vive à sombra de sua prima Helena, considerada bonita e irresistível, enquanto ela própria não passa de uma "mulher medíocre". Ela sabe que os pretendentes não se interessam por ela, e sim, pela sua riqueza. Quando Ulisses ganha a corrida e, consequentemente, sua mão, ela logo percebe que seu charme e carisma irão conquistar também seu coração. Ulisses é conhecido por ser ardiloso e manipulador. Logo depois, ele parte para sua viagem e a ausência de vinte anos.

Sozinha no castelo, Penélope logo percebe que não tem função nenhuma naquela sociedade. A governanta não a deixa fazer nada e os demais integrantes de seu círculo social esperam que ela apenas lamente a partida de Ulisses, trancafiada em seu quarto. Mesmo o filho deles, Telêmaco, não lhe presta maior atenção. Desta forma, Penélope passa a se relacionar com suas doze escravas.

Atwood também optou por dar voz às escravas, que são completamente negligenciadas na Odisséia de Homero. Elas ganharam capítulos próprios, onde narram os acontecimentos através de canto/coro. Quando Ulisses retorna, ele manda assassinar as doze escravas, o que choca (e muda) profundamente Penélope. Suas escravas relacionavam-se intimamente com os pretendentes que Penélope rejeitava, com sua aprovação. Porém, a sociedade de Penélope via as escravas como objetos desprovidos de vontades e de livre-arbítrio e foram castigadas com o enforcamento.

“Só doze”, ela gaguejou. “As impertinentes. As que foram rudes e desleais. As que erguiam o nariz para mim. Melanto, a das belas faces, e suas amigas. A turma. Elas eram todas cadelas descaradas. As que foram violentadas. As mais jovens. As mais belas.” (A Odisseia de Penélope, de Margaret Atwood)

Em 99 páginas, Atwood vai da infância de Penélope ao retorno de Ulisses, o que compreende um período de cerca de 40 anos. Por isso, alguns momentos da vida de Penélope soam apressados e pouco aprofundados, provavelmente devido ao formato sucinto de conto. O retorno de Ulisses, o momento mais esperado da estória, é narrado superficialmente e desprovido de emoção, e não sei se Atwood o fez de forma proposital. 

Esta não é a melhor obra de Atwood, responsável pela obra-prima "O Conto da Aia" e pela distopia "Oryx e Crake". Fiquei um pouco frustrada em alguns momentos, pois o conto não reflete todo seu potencial criativo. No entanto, sua tentativa de fortalecer Penélope em uma protagonista foi bastante assertivo, principalmente quando lemos o conto original e vemos as diferenças entre ambas as obras. Foi uma leitura agradável, mas não a recomendaria para quem não conhece Atwood.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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