Já Li #46 - Dançarinas, de Margaret Atwood

Margaret Atwood é presença constante aqui no blog. Uma das minhas escritoras preferidas, Atwood escreve ficção especulativa, ficção-ci...


Margaret Atwood é presença constante aqui no blog. Uma das minhas escritoras preferidas, Atwood escreve ficção especulativa, ficção-científica e contos em prosa com a mesma personalidade forte, estilo aguçado e atmosferas hiper sensíveis. No post de hoje, falarei sobre a coletânea "Dançarinas".

Esta coletânea compreende quatorze contos de Margaret Atwood, todos eles protagonizados por personagens femininas. A característica da escrita de Atwood está marcante nos textos, com suas descrições profundas de sentimentos e a sensibilidade feminina diante do cotidiano e da opressão. Como de costume, separei meus contos preferidos da coletânea.

Sob o vidro

O começo deste conto retrata uma personagem feminina completamente submissa aos caprichos de um homem. Ela é sua amante e ele, como em muitas estórias, promete levá-la a sério, mas nunca o faz. A protagonista passa por uma série de pequenas humilhações cotidianas, sujeitando-se às mudanças de humor e isolamento dele. A grande complicação do enredo é que a protagonista se culpa por não receber amor, ao invés de perceber que é o homem que não é capaz de amar. Isso retrata como a mulher foi criada, através dos tempos, a ser um objeto de amor do homem, e não um sujeito com as próprias vontades e anseios. O mais revoltante deste conto é que, em certos momentos, a leitora se vê na pele daquela protagonista e enxerga as próprias falhas.
"Quero dizer a ele o que ninguém jamais lhe ensinou, como agem duas pessoas que se amam, como evitam se prejudicar, mas não tenho muita certeza se sei. O amor de uma boa mulher. Mas nesse instante não me sinto uma boa mulher." (Sob o vidro, Margaret Atwood).

Um artigo de turismo

A protagonista deste conto é Anette e seu trabalho é viajar e, depois, escrever artigos de turismo para revistas especializadas. Depois de anos nesta profissão, Anette começou a sentir-se entediada e estagnada, afinal, o que para as outras pessoas são momentos de lazer e diversão, para ela, são momentos chatos e corriqueiros de avaliação de hotéis, restaurantes, pontos turísticos e companhias aéreas. Aos poucos, Anette foi perdendo a vontade de viver, pois não é capaz de encontrar prazer em nenhuma atividade. Sua última tentativa foi uma viagem romântica com o marido, viagem esta que mostrou-se previsível e monótona.
A falta de empatia e de diálogo com o marido aprofundaram, ainda mais, a sensação de isolamento e solidão de Anette.
"Quando disse 'Às vezes sinto que não estou viva', o marido tomou isso como um comentário às suas relações amorosas e ela precisou gastar uma hora tranquilizando-o, dizendo-lhe que não era isso que queria dizer; referia-se ao seu emprego. Mas a visão que o marido tinha de seu trabalho é que era um feliz acaso, era uma mulher de muita sorte." (Um artigo de turismo, Margaret Atwood)
Em uma das suas viagens, o avião cai no meio do oceano e o resgate demora mais de 50 dias para resgatar ela e mais alguns passageiros sobreviventes. Anette descreve esta situação extrema de sobrevivência da mesma forma apática e sem sentimentos dos seus outros artigos de turismo, e isto torna o conto opressor e angustiante. Ao final da estória, não sabemos se o resgate realmente chegou ou se Anette não sobreviveu.

Dançarinas

O conto que dá nome à coletânea é um dos últimos do livro. Ann mora em uma pensão, cuja proprietária é a Sra. Nolan. Seu quarto é conjugado com outro e, por isso, ela precisa dividir o banheiro com outras pessoas. Estas pessoas vêm e vão da pensão, mas Ann permanece, sem ter para onde ir. Eventualmente, ela faz amizade com os outros inquilinos, mas isto vem se tornando cada vez mais raro. No momento, o outro inquilino é um rapaz que, pelas descrições de Atwood, parece ser de origem árabe. O rapaz não conversa com ninguém e deixa a Sra. Nolan extremamente intrigada. Ann, no entanto, sente-se grata pelo fato do rapaz sempre deixar o banheiro intocado e limpo.
Ann é estudante de Urbanismo e, em seus trabalhos acadêmicos, ela nunca consegue criar projetos que incluam as pessoas, uma vez que ela própria não se aproxima de ninguém. Porém, ao descobrir que o homem fazia uma festa com prostitutas - as quais Ann se referiu como dançarinas - ela começou a pensar nos outros como pessoas, com vontades e necessidades próprias.

O livro é pequeno, apenas 214 páginas, e os contos são breves. É uma leitura que recomendo bastante.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

Posts Relacionados

Comente com o Facebook

0 comentários