9 motivos que fazem de O Conto da Aia uma obra MUITO relevante

OK, me contive no título deste post, para não forçar minha opinião garganta abaixo de ninguém. Mas o que realmente penso é que "O C...


OK, me contive no título deste post, para não forçar minha opinião garganta abaixo de ninguém. Mas o que realmente penso é que "O Conto da Aia", de Margaret Atwood, é a obra mais relevante de todas na atualidade. Ouso dizer que é a obra mais relevante de todos os tempos. Separei alguns motivos que me fazem acreditar nisso.

Se você prefere ler a resenha que escrevi para o livro, clique aqui.

1) Mulheres sem poder aquisitivo
Em um mundo pautado pelo dinheiro e pelo sistema capitalista, não possuir poder de compra, finanças pessoais, propriedades, bens e um emprego fazem do indivíduo alguém inferior. No sistema de governo de "O Conto da Aia", as mulheres são consideradas tão inferiores que foram banidas do mercado de trabalho. Nenhuma mulher pode trabalhar, pois "a mulher foi feita para cuidar da casa". Todo o dinheiro que as mulheres tinham passaram automaticamente para as contas bancárias de seus maridos. Se a mulher não é casada, ela torna-se miserável, pois perde tudo o que possuía para o governo.

2) Religião com força de lei
Atwood não especifica qual religião dominou o governo, mas a estória se passa em um cenário especulativo onde terroristas religiosos mataram todos os políticos das principais nações do mundo, em ataques concomitantes por todo o planeta. Daí em diante, os religiosos assumiram o governo e toda a Constituição existente é baseada na Bíblia. Versículos e trechos do Livro Sagrado tem força de lei e não existem mais tribunais, julgamentos ou sentenças. No caso das mulheres, a tal religião as vê como seres inferiores e, por isso, elas são condenadas à morte imediatamente, caso saiam da lei.

3) Ausência de sororidade
Diante desta nova realidade para as mulheres, espera-se que elas se unam para mudarem a situação. No entanto, o que vemos é que o governo conta com o enfraquecimento das mulheres através da falta de sororidade. Para quem não sabe, é uma aliança entre as mulheres, baseada na empatia e no companheirismo, trazendo força para todas. Em "O Conto da Aia", o que vemos são mulheres acusando umas às outras de serem vagabundas, fracas e pervertidas, denunciando outras mulheres ao governo e sentenciando-as à morte.

4) Mulheres destituídas de identidade
Além de perder o poder aquisitivo, o livre-arbítrio e a força política, as mulheres também perdem seus nomes e suas identidades. Elas são classificadas em Esposas, Marthas (governantas) e Aias (que tem o dever de engravidar). As Aias são nomeadas de acordo com o Comandante a qual servem, por exemplo: Offred, a protagonista da estória, significa Of Fred, ou "Do Fred" (o nome do Comandante), como se a mulher fosse apenas uma propriedade, um bem, e não um indivíduo.

5) Mulheres resumidas a cuidadoras ou parideiras
Uma vez que as mulheres não podem mais trabalhar, elas são resumidas a serem cuidadoras do lar (as Esposas e as Marthas) ou parideiras (as Aias). Não existe outro futuro para as mulheres nesta sociedade e, caso elas não se encaixem em nenhuma destas três categorias, elas são enviadas para as Colônias ou mortas por enforcamento.

6) Homossexualidade como crime
Uma das passagens mais horrorosas da estória - sobretudo na série, no terceiro episódio da primeira temporada - é quando a Aia Ofglen vê sua amante, uma Martha, sendo enforcada. Elas se apaixonaram na casa do Comandante a qual servem e foram denunciadas pela Esposa do mesmo (olha aí a tal falta de sororidade). Lésbicas antes do governo foram castigadas e submetidas a "cerimônias de purificação". Além disso, as mulheres lésbicas são mutiladas pelo governo.

7) Nenhum relacionamento é considerado válido fora do casamento
O único relacionamento considerado legal nesta sociedade é o casamento. Namoros e amizades não tem nenhum peso na estrutura social e filhos tidos fora do casamento são considerados bastardos e mortos. Marthas e Aias não podem se casar. Apenas Esposas e suas filhas (geradas pelas Aias) podem se casar.

8) Supressão de sentimentos
Um dos aspectos que mais me angustiou no livro foi perceber a falta de sentimento nas relações. As Esposas são completamente submissas aos Comandantes e não demonstram afeto, raiva, frustração ou tristeza: é um perene estado de gratidão mansa. As Marthas são meras governantas das casas e não podem, em hipótese alguma, expor opiniões ou idéias. As Aias precisam ter relações sexuais com os Comandantes para gerarem os filhos, mas não podem obter prazer das relações.

9) Estupros
E, para terminar com um soco no estômago, as Aias podem ser estupradas, pois são as únicas mulheres que mantêm relações sexuais nesta sociedade. E, uma vez que elas não tem dinheiro, moradia, emprego, opiniões, sentimentos ou livre-arbítrio, o governo não acha que elas mereçam uma vida melhor.

Talvez seja redundante finalizar este post ressaltando o quão cruel, assustador e triste é esta estória, mas garanto: ao ler o livro e ver a série, a angústia vem ainda mais forte. E, depois que a angústia diminui, o que fica é uma vontade gigantesca de lutarmos, cada dia mais, pela igualdade de gênero e por um sistema político honesto.

Se você se interessou pela obra, saiba mais sobre a musa Margaret Atwood clicando aqui.
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