O que ler de Virginia Woolf?

Ano passado, fiz um post recomendando obras de Clarice Lispector para quem nunca leu nada dela. A idéia fez sucesso e pediram para que...


Ano passado, fiz um post recomendando obras de Clarice Lispector para quem nunca leu nada dela. A idéia fez sucesso e pediram para que eu fizesse a mesma coisa com as obras de Virginia Woolf, musa inspiradora declarada desta escritora que vos fala. 
Já falei sobre dois livros dela: "Mrs. Dalloway" e "Noite e Dia", entre outras menções sobre ela perdidas pelo blog, mas ainda existem muitas obras suas que merecem atenção especial. 

"Ao Farol" (1927)

"Ao Farol" é um romance dividido em três partes - A Janela, O Tempo Passa e O Farol - e conta sobre a viagem da família Ramsays ao farol na Ilha de Skye, na Escócia.
Na primeira parte do romance, a narrativa se concentra na dinâmica familiar dos Ramsays, principalmente de acordo com a perspectiva da matriarca. Os membros da família são apresentados aos poucos, de acordo com a entrada deles nas cenas do cotidiano. Woolf não se apressa em mostrar o quadro geral da família, dando as informações para o leitor aos poucos. A matriarca quer organizar a ida da família ao farol, enquanto o pai mostra-se resistente e teimoso.
Na segunda parte do livro, alguns acontecimentos importantes mudam a trajetória da família para sempre, e a estória fica mais densa e mais melancólica.
Na terceira parte do livro, os conflitos (e a viagem) se encaminham para uma resolução, dez anos depois da primeira parte.
Como todas as obras de Virgínia, a narração dos acontecimentos se dá através do pensamento e do sentimento das personagens. As ações, em si, não ocorrem. O que ocorre são as reações das protagonistas ao que acontece ao redor delas. Os fluxos de consciência são muito intensos, principalmente na primeira parte do livro, o que pode cansar alguns leitores. Vale a pena persistir pois, mais adiante, quando os conflitos se avolumam, tudo começa a fazer sentido e ganhar mais agilidade na narrativa. Este livro fala, antes de mais nada, sobre a complexidade das relações humanas, suas sutilezas, subterfúgios e tudo aquilo que fica (não) dito nas entrelinhas.
Se você gosta de temáticas envolvendo família, tenha um lenço à mão. Você vai precisar, acredite.

"Orlando: uma Biografia" (1928)

Muito antes das questões de gênero estarem em debate, Virgínia levantou o tema neste livro - que, inclusive, foi adaptado para o cinema em um filme de 1992, com a maravilhosa Tilda Swinton. 
É a única obra dela que não foi narrada em fluxo de consciência. Aqui, Virgínia faz uma paródia dos documentários históricos, fingindo contar a biografia de Orlando como se ele, de fato, tivesse existido, e não fosse fruto da sua ficção.
Orlando é um homem que já tem 350 anos de idade. Um dia, em viagem pela Turquia, ele acorda como mulher. Por causa da sua personalidade bem-humorada e sarcástica, Orlando não se surpreende com este acontecimento, e o trata como se fosse algo cotidiano. 
Ao longo da narrativa, as diferenças de viver numa sociedade sendo homem e sendo mulher são pontuadas, mas de uma forma leve e descompromissada, que é o tom da personalidade do protagonista. No entanto, embaixo desta camada de banalidade, Virgínia faz críticas muito bem construídas sobre os gêneros.


"As Ondas" (1931)

Se você quer ler algo mais complexo dela, recomendo este livro, que é a obra mais "experimental" que Virgínia escreveu.
Ele é composto, basicamente, das conversas que as personagens tem consigo mesmas, os chamados solilóquios. São seis personagens - Bernard, Susan, Rhoda, Neville, Jinny e Louis - que formam um grupo de amigos.
O romance acompanha a infância e o desenvolvimento para a vida adulta deles, através destes solilóquios. Neles, o leitor descobre quem está pensando em quem, quem gosta de quem, quem não gosta de quem, e assim por diante. Desta forma, o leitor tem uma visão total dos acontecimentos, porque os lê de diversos pontos-de-vista diferentes.
É uma leitura complicada, não vou mentir, mas vale muito a pena. Depois de um tempo, o leitor pega o ritmo da obra e entende o propósito de Virgínia, e aí as coisas passam a fluir melhor. Com o tempo, também, o leitor começa a se identificar com alguma das personagens, o que torna a empatia e o vínculo mais fáceis. Diria que este livro dela é uma obra de arte.

Se você leu algum livro dela, venha debater. É um dos meus assuntos preferidos!

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3 comentários

  1. Oi, moça.
    Peço um trilhão de desculpas por aparecer aqui somente agora, mas, provavelmente, você já percebeu que eu tô bem afastada até mesmo do meu blog, que dirá dos alheios.
    Mas, olha só: parece mesmo que, quando eu tenho um vínculo emocional forte com alguém, algumas sincronicidades começam a acontecer (tenho outra grande amiga que tá sempre em sincronia comigo também, fico b-e-s-t-a).
    Orlando me chamou muita atenção, pelo fato de entrar no debate de gênero - achei uma trama engraçada e o fato de não ser narrada em fluxo de consciência também me agradou (não que eu não goste desse tipo de perspectiva, claro).
    Li bem pouquinho, até agora, As Ondas, porque tô numa super função de trabalhos da faculdade e coisas do estágio, mas até agora tô gostando bastante. Demorei umas duas páginas pra entender aqueles diálogos, mas tô achando bem diferente (e nem tão complicado assim). Pelo que entendi, os personagens se falam entre eles também, mas é tão sutil, que quase não dá pra perceber. Já me identifiquei com algumas passagem, claro <3 Já sinto que vou amar e você tem razão: parece ser uma obra de arte, porque é totalmente diferente de tudo o que existe no mundo literário. Acho que vai ser uma ótima experiência. Ah, ainda tenho que terminar Mrs. Dalloway. Me afastei da literatura da Woolf por esses dias, porque tava emocionalmente mal, então, preferi não me afundar mais ainda nesse estado de solidão e angústia. Mas agora acho que é uma boa oportunidade :)

    Como sempre, ótimo post.

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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  2. Olá!
    Nunca havia me interessado por Virginia Woolf, mas, vejo você e outra youtuber, que também gosto muito, falarem tão bem sobre ela que o interesse começou a brotar. Aproveitarei a oportunidade para inserir essa autora no meu artigo do TCC. Com certeza irei ler as obras que você indicou e muito mais. Espero gostar tanto quanto vocês.
    Um beijo.

    http://sonhandoatravesdepalavras.blogspot.com.br/

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    1. Oi Thainá!
      Fico feliz que eu tenha conseguido despertar seu interesse por ela, pois ela é realmente uma grande escritora. Acho que ela vai agregar muito no seu TCC.

      Bjs!

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