Já Li #26 - O Quarto de Jacob, de Virgínia Woolf

Quem acompanha o Perplexidade e Silêncio, nem que seja de vez em quando, sabe que Virgínia Woolf é minha musa inspiradora por excelênci...


Quem acompanha o Perplexidade e Silêncio, nem que seja de vez em quando, sabe que Virgínia Woolf é minha musa inspiradora por excelência. Por aqui, já falei sobre diversas obras dela, e organizei em uma breve listinha para você se atualizar:
No post de hoje, falarei sobre "O Quarto de Jacob", publicado originalmente em 1922. Mas, antes de falar sobre o livro, gostaria de fazer uma pequena contextualização sobre Virgínia e esta obra. Este livro foi escrito no início do Modernismo, ou seja, nesta época, os artistas estavam buscando novas estruturas narrativas, por causa das mudanças que a Ciência e a Filosofia estavam trazendo na maneira de pensar. Por causa disso, as formas tradicionais e conservadoras de pensar sobre o mundo ficaram abaladas, o que trouxe ansiedade e angústia para muitas pessoas. O Modernismo, então, se propôs a usar estes sentimentos para criar arte. Os artistas modernistas também estavam dispostos a experimentar coisas novas, recriar elementos e sacudir a ordem do mundo.

Por isso, a estrutura narrativa de "O Quarto de Jacob" foi muito revolucionária para aquela época, e é, até hoje, objeto de estudo e elogios. Isso acontece porque Virgínia conta toda a estória da personagem principal, Jacob Flanders, sem que ele esteja presente no enredo. O leitor conhece Jacob e acompanha sua jornada sem que ele apareça diretamente nos acontecimentos. Sua estória é contada de um ponto-de-vista externo e a partir das percepções e pensamentos das mulheres da vida dele. 

Assim, o livro começa com a infância de Jacob, contada através do olhar de sua mãe, Betty Flanders. A cena inicial, onde a família passa uma tarde na praia, é belíssima. Logo percebemos que a estória de Jacob será contada em fragmentos, pequenos recortes de sua vida, e o leitor precisará juntar esta colcha de retalhos para entender quem Jacob realmente é.

Depois, a estória acompanha a entrada de Jacob na Universidade e sua dificuldade em fazer novas amizades. Neste momento, embora dois personagens masculinos nos sejam apresentados, seus novos amigos, a narrativa continua na perspectiva de uma de suas amigas. Este predomínio do ponto-de-vista feminino traz muita poesia e sensibilidade às frases. O leitor, no entanto, deve ficar atento para não se perder, pois surgem muitos nomes e pessoas que são irrelevantes para o enredo e podem confundir.

No trecho final do livro, Jacob chega à vida adulta. Ele tem um caso amoroso com uma garota de uma classe social inferior a dele e, entediado com a ausência de cultura e erudição da garota (assim deduziram as pessoas próximas a ele, pois lembre-se: ele mesmo não aparece na estória e não sabemos, de fato, o que ele sente ou pensa), Jacob resolve conhecer o mundo. Fã dos filósofos da Antiguidade, ele vai para a Grécia e para a Itália, em busca de uma verdade que ninguém compreende inteiramente qual seja. Quando cheguei no final da estória, entendi algo que estava presente desde o início do livro, mas eu não tinha me dado conta: é uma tragédia e seria um spoiler falar mais sobre ela, mas posso dizer que finalizei a leitura me sentindo melancólica e pensativa.

De forma geral, há sempre um vazio e distanciamento em relação a Jacob, e o leitor experimenta a mesma confusão que as pessoas ao redor dele experimentaram: ninguém, de fato, conheceu ele plenamente, e este vazio é sentido por todos que passaram pela sua vida. Virgínia, nesta experimentação de nova narrativa, na realidade transmite uma sensação que é comum a qualquer pessoa, aquela máxima de que sempre estamos sozinhos, pois nunca é possível alcançar o outro plenamente. É uma leitura difícil e profunda, mas que vale muito a pena - como tudo de Virgínia.


Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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1 comentários

  1. Wow! Que história interessante! Em pensar que a história toda do protagonista é contada pelo olhar de outras pessoas, parece um livro excelente. Li apenas "Um teto todo seu" de Virginia Woolf. Em casa, tenho "Noite e Dia" e mais alguns poucos livro da autora que pretendo ler assim que possível. "O quarto de Jacob" sem dúvida entrou para a lista. Abs.
    Daniela Tiemi
    Leituras & Comidinhas

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