Já Li #232 - Sete Anos de Escuridão, de You-jeong Jeong

 

A resenha de hoje é dedicada à literatura sul-coreana com "Sete Anos de Escuridão" de You-jeong Jeong, um thriller psicológico sobre assassinatos e vidas despedaçadas.

Em "Sete Anos de Escuridão", a história começa com os relatos de Sowon. Seu pai (Choi Hyonsu) será condenado à morte depois de sete anos de prisão, preso por assassinato. Sowon vive no ostracismo e à margem da sociedade desde a prisão de seu pai, já que, de uma maneira misteriosa, as pessoas das vilas por onde passa sempre descobrem sua conexão com Hyonsu, e Sowon é assim expulso de várias escolas e demitido de vários empregos ao longo destes sete anos. Ele é cuidado pelo Sr Ahn, que trabalhava para o seu pai na época do assassinato.
O título da obra se refere a este período da vida de Sowon e intercala capítulos em primeira pessoa, onde Sowon narra suas experiências atuais e a angústia de saver que seu pai será executado em breve, e capítulos do passado, narrados em terceira pessoa, quando sabemos o que aconteceu na ocasião do tal assassinato. O cenário da obra é uma pequena cidade fictícia da Coreia do Sul que foi construída ao redor de uma represa e de um jardim botânico, e todas as pessoas que ali moram trabalham direta ou indiretamente para um destes dois lugares. Hyonsu e sua família, inclusive, se mudam para lá quando Sowon ainda é criança pois Hyonsu conseguiu um bom emprego na represa.

O assassinato em questão é o da garota de onze anos de idade Seryong. Ela é filha do principal chefe da represa, Yongje, um homem extremamente violento e cruel que abusa de sua esposa e filha de todas as formas possíveis. Seryong foge de casa após um episódio de violência mais intenso, quando Yongje fica à beira de matá-la. A garota sai correndo pela represa, de noite e no escuro, quando é atropelada por Hyonsu, que dirigia bêbado. Agonizando pelos múltiplos ferimentos sofridos pelo pai e pelo atropelamento, Hyonsu decide matá-la para "terminar logo com aquilo tudo". 
A partir daí, o enredo foca em mostrar como este acontecimento abala profundamente Hyonsu, que não consegue se recuperar da culpa, e a sede de vingança absurda e cruel de Yongje, que quer descobrir quem foi o responsável pela morte da filha, agindo como se ele mesmo fosse totalmente inocente.

Só no final, o livro retoma a narrativa do ponto-de-vista de Sowon, que recebe cartas e materiais sobre o assunto através de uma remessa enviada pelo próprio Sr Ahn, que está desaparecido - e provavelmente em perigo. Sowon então percebe que Yongje deve estar à espreita deles (Sr Ahn e Sowon) pela ocasião da execução de Hyonsu, acertadamente assumindo que ambos vão à prisão buscar as cinzas de Hyonsu. 

Acho que o enredo teria se beneficiado se tivesse explorado a perspectiva de Sowon em vez de simplesmente recontar esses eventos passados. Os acontecimentos de sete anos atrás são entregues ao leitor sem mistérios pois - teoricamente - o suspense do livro deveria ser o desaparecimento de Sr Ahn no tempo atual. Porém, este suspense é pouco explorado, desenvolvido de forma muito superficial e também muito rápida, e quando chegamos à resolução deste desaparecimento, a recebemos com um anti-clímax, porque a essa altura já sabemos quem está por trás de tudo.
A história em si é boa, mas acredito que Jeong pecou na forma de organizar os eventos.

Além disso, Jeong nos dá a impressão de que Sowon é o protagonista. Porém, se assim é, ele aparece muito pouco e, quando aparece, Jeong não explora realmente seus sentimentos e experiências ao longo dos tais sete anos de escuridão - que eu acho que deveria ser o centro da narrativa, e não os flashbacks.
Outro ponto que me incomodou foram as descrições sobre o funcionamento da represa e sobre a geografia da vila, achei entediante e me afastava dos momentos mais dramáticos.

Não gostei da leitura, mas também não detestei. Terminei a leitura com uma sensação de potencial desperdiçado, mas leria outras obras da autora.
Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 3/5

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