Já Li #233 - Belo Mundo, Onde Você Está?, de Sally Rooney

 

Eu estava com vontade de ler alguma coisa diferente, para dar uma pausa na minha maratona de Brandon Sanderson, e aí escolhi "Belo Mundo, Onde Você Está?", de Sally Rooney.

Aqui no blog também temos a resenha de: Já Li #215 - Pessoas Normais, de Sally Rooney

Alice, uma romancista, conhece Felix, que trabalha em um armazém, e o convida para viajar a Roma com ela. Em Dublin, sua melhor amiga, Eileen, está superando um término de relacionamento e volta a flertar com Simon, que conhece desde a infância.  O livro intercala e-mails que as duas amigas trocam e capítulos narrados em terceira pessoa, avançando com a história de maneira rápida.

A primeira impressão que este livro me deixou foi que talvez ele seja uma celebração da baixa autoestima das personagens femininas, sobretudo Alice, e também que talvez este seja o tema preferido de Rooney, quando penso em Mariane de "Pessoas Normais. A autora parece ter um especial apreço por relacionamentos degradantes e personagens passivos.

No enredo, fica subentendido que Alice esteve internada em um hospital psiquiátrico, embora não tenhamos detalhes do porquê. Assim que sai do hospital, Alice decide ir morar isolada no interior, em uma pacata cidade onde não é reconhecida (Alice é uma famosa escritora). Porém, logo ao chegar a esta cidade, Alice se submete a um relacionamento tóxico e bastante constrangedor com Félix, um rapaz bastante problemático que abusa dela verbalmente, ainda que de maneira sútil. Ele também envergonha e agride os amigos de Alice, além de importuná-los com perguntas pessoais bastante invasivas. A forma como Alice aceita esta humilhação me incomodou muito ao longo de toda a história, sobretudo porque a personagem não tem qualquer tipo de reação ou arco de desenvolvimento.
Félix, no entanto, apesar de ser um personagem incômodo, mostrou ser uma grata surpresa no livro, justamente por ser um contraponto aos demais personagens, que são chatos e entediantes. 

Eileen e Alice são quase a mesma pessoa, para mim, e por isso tenho muita dificuldade de falar sobre o enredo de Eileen aqui. Ela trabalha como assistente numa editora e conheceu Alice na faculdade. Fora o fato de Eileen ainda estar superando o término de um namoro, não registrei nada de especial sobre ela - tanto que, nas trocas de e-mail ao longo do livro, eu sempre me confundia, pois nunca consegui diferenciar Alice de Eileen. A voz narrativa é a mesma (melancólica, reflexiva, solitária, poética), a profissão é parecida e a visão de mundo também. Até agora não entendi se Rooney as faz iguais de propósito, ou se é apenas uma falta de técnica da autora - que é minha hipótese, já que Mariane, Alice e Eileen são exatamente iguais e, dito isso, planas e entediantes da mesma forma. 
Nem preciso dizer que quase desisti da leitura justamente por causa disso. Na minha opinião, saber criar personagens bem desenvolvidos é o básico de um bom escritor, é o "arroz com feijão" de qualquer obra - sobretudo em obras focadas no mundo interior como Rooney se propõe. Já tinha me decepcionado em "Pessoas Normais" e aqui, mais uma vez, me frustro.

E assim como Connel era mal desenvolvido em "Pessoas Normais" , temos aqui Simon, o interesse romântico de Eileen, que também não agrega nada ao enredo e não se sobressai. Além da característica religiosa adicionada a ele por Rooney, não tenho o que falar sobre Simon. Ele, assim como Connel, é só um adereço.

E então temos aqueles interlúdios de e-mail entre Alice e Eileen, onde encontramos uma pitada de opiniões e reflexões sobre consumismo, política, sexualidade, identidade, capitalismo, religião, beleza e o sentido da vida. Parecem ser capítulos de um ensaio mais longo, intercalados entre as cenas banais do romance, contrastando com os capítulos no tom e forma. Mas o que mais me incomodou foi que ambas repetem as cenas que acabamos de ler no capítulo anterior, com pouca adição de profundidade ou relevância, obrigando o leitor a ler de novo a mesmíssima coisa mais de uma vez. Isso sem falar na quantidade desnecessária de detalhes sobre o dia-a-dia delas, que é tão desinteressante quanto as próprias personagens.

Fiquei com a sensação de ter lido algo que não me tocou, embora devesse. A estranha pompa das seções de e-mails, começando com a banalidade de detalhes mundanos. O constrangimento persistente das cenas de sexo voyeurísticas e desajeitadas. Os personagens, em sua maioria, desinteressantes. A sobrecarga de filosofia que clama por encontros estudantis regados a álcool.

Dito tudo isso, chego a uma conclusão: não lerei mais nada de Rooney. Não vale a pena. 
Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 2/5

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