8 Livros do Feminismo | 5/8 Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman

Recentemente, li um guia chamado O Livro do Feminismo (série  "As Grandes Idéias de Todos os Tempos" #14  da Editora Globo Liv...


Recentemente, li um guia chamado O Livro do Feminismo (série "As Grandes Idéias de Todos os Tempos" #14 da Editora Globo Livros) e ele foi tremendamente inspirador. O guia traz obras e mulheres inspiradores desde o séc XV até os dias atuais e aprendi muitíssimo com ele. Por isso, separei oito obras que contribuíram para a história e a evolução do Feminismo ao longo dos anos que eu faço questão que você conheça. Hoje, falarei de "Papel de Parede Amarelo" de Charlotte Perkins Gilman.

Quem foi Charlotte Perkins Gilman?
Nascida em 1860, Gilman usou sua escrita para explorar a identidade das mulheres nos Estados Unidos por volta de 1900. Ela expandiu muitas questões, como a falta de uma vida fora de casa e as forças opressivas da sociedade patriarcal.
Sua vida começou com uma infância difícil e miserável, até que ofereceram uma oportunidade "irrecusável" para ela sair da pobreza, ou seja, o casamento. Depois de muitas recusas, ela acabou aceitando e tendo uma filha, mas foi acometida por uma severa depressão pós-parto. Ela fez algo inimaginável para a época, se separou do marido e foi morar com uma amiga, onde finalmente se recuperou e focou em sua carreira de escritora.
Daí em diante, Gilman transforma-se em uma das principais ativistas pelos direitos das mulheres, funda associações feministas, vira editora de jornais revolucionários e torna-se professora. Aqui preciso lembrá-los que ela fez tudo isso no final do século 19, onde as mulheres ainda eram vistas como "bens e propriedade" de seus pais e maridos.
Aqui no Perplexidade e Silêncio, você também pode ler a resenha de seu livro (maravilhoso): "Herland - a Terra das Mulheres".

"Papel de Parede Amarelo" é um conto escrito em 1982. É narrado em primeira pessoa como se fossem entradas em um diário, escritas por uma mulher cujo marido médico aluga uma casa de campo para ela descansar. Conforme lemos as entradas, percebemos que a mulher acabou de parir um bebê e está profundamente deprimida. Como seu marido não permite que ela trabalhe nem que ela veja outras pessoas, tudo o que resta para esta mulher é passar os dias e as noites observando o papel de parede amarelo do quarto. Dia após dia, a mulher começa a alucinar e, em um dado momento, ela acredita que existe uma mulher presa no papel de parede e, no ápice da alucinação, começa a arrancar o papel e, por fim, acredita que ela é a própria mulher do papel de parede. 
Para entender a profundidade deste conto, é preciso decifrar o simbolismo por trás de cada elemento dele, e separei abaixo uma listinha.

Um protesto contra a opressão à mulher. 
Nesta época, as mulheres eram vistas e descritas como mentalmente fracas e frágeis. Por isso, os homens tinham profissões "sérias" (como advogados e médicos) enquanto as mulheres deveriam se ocupar apenas de atividades domésticas leves e simples. Em "Papel de Parede Amarelo", fica óbvio para o leitor que o marido da história está fazendo tudo errado, afinal, ele está trancando uma mulher com depressão pós-parto dentro de um quarto e privando-a de conectar-se e ocupar-se. Porém, como ele é o homem, a protagonista se vê obrigada a aceitar que ele está fazendo o melhor para ela, quando ela própria sabe que não é verdade.
As mulheres eram até desencorajadas a escrever, porque isso acabaria criando uma identidade e se tornaria uma forma de desafio. Gilman percebeu que escrever se tornou uma das únicas formas de existência das mulheres em uma época em que elas tinham poucos direitos.

Relatos autobiográficos de como cuidavam da saúde mental das mulheres.
Gilman explicou que a ideia do conto se originou de sua própria experiência como paciente com um tal de Dr. Weir Mitchell, que supostamente deveria ter tratado sua depressão pós-parto. Ela sofreu com esta depressão durante anos e o médico prescreveu uma "cura pelo repouso" que exigia que ela "vivesse a vida mais doméstica possível". Ela estava proibida de tocar em uma caneta, lápis ou pincel e tinha permissão para apenas duas horas de estimulação mental por dia. Depois de três meses e quase enlouquecendo, Gilman decidiu violar seu diagnóstico, juntamente com os métodos de tratamento, e começou a trabalhar novamente. Ciente de quão perto esteve de um colapso mental completo, a autora escreveu “Papel de Parede Amarelo" com acréscimos e exageros para ilustrar suas próprias críticas ao campo médico.

O simbolismo do papel de parede amarelo
Há um certo grau de triunfo no final da história. Embora alguns afirmem que a protagonista ficou louca, outros vêem o final como uma afirmação da inevitável libertação de uma mulher em um casamento no qual ela se sentia presa. Já que a mulher não tinha permissão de escrever em seu diário nem de ler, ela começaria a "ler" o papel de parede até encontrar a saída/fuga que estava procurando. Ao ver as mulheres no papel de parede, a narradora percebe que não poderia viver sua vida trancada atrás das grades. No final da história, com o marido deitado no chão inconsciente, ela rasteja sobre ele, levantando-se simbolicamente sobre ele. Isso é interpretado como uma vitória sobre o marido, às custas de sua sanidade.

Aqui estou fazendo uma análise bem sucinta, pois não quero escrever um post longo demais, mas há inúmeras nuances e interpretações deste conto que merecem ser estudadas a fundo. Caso você queira uma análise mais detalhada do conto, sugiro a tese de Maylah Esteves da Universidade Federal de São Carlos, cujo PDF pode ser acessado para download gratuitamente aqui.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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