Já Li #41 - A Menina que Tinha Dons, de M. R. Carey

Quem me conhece sabe: tenho um medo tremendo de zumbis. Não consigo assistir nem ler nada relacionado ao tema que me dá calafrios e pes...


Quem me conhece sabe: tenho um medo tremendo de zumbis. Não consigo assistir nem ler nada relacionado ao tema que me dá calafrios e pesadelos. Porém, mais assustador que os zumbis, é você perceber que está se apegando a um deles. O post de hoje é sobre este livro de horror e ação de M. R. Carey, "A Menina que Tinha Dons".

M. R. Carey é mais conhecido pelas HQs e roteiros de cinema que escreve. Ele é responsável por escrever as HQs Lúcifer, algumas edições de Hellblazer, a biografia em HQ de Ozzy Osbourne, Elektra e X-Men, dentre outras. Assim, seu estilo literário é mais direto e menos descritivo, fornecendo apenas as informações necessárias para compreensão dos contextos ou das locações.

"A Menina que Tinha Dons" é um dos nove livros que Carey escreveu e foi publicado em 2014. O livro é qualificado como "uma ficção-científica de horror zumbi pós-apocalíptica" e já tem uma adaptação para o cinema, lançada em 2016 e com roteiro escrito pelo próprio Carey.

A premissa da estória é que, há vinte anos atrás, toda a Humanidade foi infectada por um fungo que fez com que os seres humanos se tornassem canibais e exterminassem a própria espécie. Estes seres humanos infectados passaram a ser chamados de famintos. Algumas poucas pessoas não foram infectadas e elas se juntaram para morar na base militar de Beacon, Inglaterra, onde uma redoma de vidro os protege dos famintos e permite que eles tenham uma vida minimamente normal.

As autoridades de Beacon escolheram algumas crianças famintas para fazerem parte de uma pesquisa científica, onde pretende-se descobrir porque elas não foram tão afetadas como os demais famintos e, também, quais são as possibilidades de cura da Humanidade. A cientista-chefe desta pesquisa é a Dra. Caroline Caldwell que, de tempos em tempos, mata e disseca uma das crianças para estes objetivos acima descritos.

O leitor só irá compreender todas estas premissas da estória no meio do livro pois, no início, o foco da narrativa é Melanie. Melanie é umas destas crianças da pesquisa e, embora narrado em terceira pessoa, a perspectiva do início do livro é a dela e, assim, como Melanie não sabe que está em uma pesquisa científica militar e tampouco sabe que é uma faminta, o leitor descobre o que está acontecendo junto com ela. O que Melanie sabe é que ela fica presa em uma cela e, todos os dias, guardas levam-na amarrada a uma cadeira de rodas para a sala de aula, onde aprende as matérias básicas de uma escola, junto com outras crianças na mesma situação.

Na sala de aula, a professora preferida de Melanie é Helen Justineau. Helen é empática, carinhosa e ensina sobre literatura, contos-de-fada e mitologia, proporcionando as aulas mais interessantes e filosóficas. Logo em seguida, tanto Melanie quanto o leitor descobrem que a Professora Justineau tem a responsabilidade de avaliar psicologicamente as crianças e transmitir estas avaliações à Dra. Caldwell.

Melanie, aos poucos, também percebe que, de tempos em tempos, algumas das crianças somem das aulas e começa a ficar com medo de que ela própria também desapareça. A situação de Melanie piora quando, ao se aproximar indevidamente da Professora Justineau, a garota sente o cheiro da professora e quase a ataca, despertando seus instintos de faminta. 

Em paralelo a isso, do lado de fora da base militar, famintos tentam invadir o prédio para atacar os seres humanos que vivem ali (os professores, os guardas, a equipe de cientistas e a própria Dra. Caldwell).

Carey não se alonga, tampouco se aprofunda, nas dimensões emocionais e psicológicas de suas personagens. Seu estilo conciso se estende a todos os elementos da narrativa, privilegiando as cenas de ação e os conflitos físicos que, estes sim, ganham maior destaque e detalhamento. Ao longo da leitura, é fácil visualizar os acontecimentos como se fossem cenas de um filme de super-herói.

Com isso, tanto os famintos quanto os seres humanos são descritos da mesma forma, tornando Melanie uma zumbi, no mínimo, amigável e diferente dos clichês sobre o tema. Melanie está mais próxima de ser uma criança ingênua e meiga do que de ser uma zumbi, o que torna o enredo original. As cenas onde Melanie descobre o que são flores, árvores e estações do ano é muito bonita, afinal, ela vive presa em uma cela num mundo pós-apocalíptico e, por isso, ela nunca tinha visto uma flor, até a professora Justineau levar algumas flores selvagens para a sala de aula.

Porém, acho que a estória teria funcionado muito melhor se Carey tivesse optado por narrar os eventos em primeira pessoa e a partir do ponto-de-vista de Melanie. Desta forma, acho que a obra teria uma carga emocional e dramática maior, aproximando o leitor ainda mais de Melanie e, consequentemente, deixando a plot twist e o final da estória bem mais surpreendentes. A falta de aprofundamento das personagens e o excesso de cenas de ação foram me distanciando da obra, conforme a leitura progredia e, no final dela, meu interesse pela estória estava consideravelmente menor.

Além disso, o estilo pouco descritivo de Carey não aproveitou as oportunidades de horror das cenas com os famintos, que poderiam ter sido mais gráficas e mais chocantes.

Acredito que este livro irá agradar leitores que gostem de uma narrativa curta e direta. Como gosto de enredos mais detalhados, a estória não me agradou, infelizmente.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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1 comentários

  1. Eu gosto desse tipo de história, mas pra ficar algo realmente bom e envolvente precisamos nos apegar aos personagens e nos imaginar na situação... Uma pena o autor não ter conseguido se aprofundar no emocional dos personagens, para uma história como essa seria muito importante!
    Beijos!
    Colorindo Nuvens

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