O livro ou o filme? | A Garota Dinamarquesa, de David Ebershoff

Depois da sessão de "A Garota Dinamarquesa" , saí do cinema com o coração apertado. Não era um aperto de tristeza ou de angúst...


Depois da sessão de "A Garota Dinamarquesa", saí do cinema com o coração apertado. Não era um aperto de tristeza ou de angústia, e sim, de uma emoção tão cheia de nuances que precisei de vários dias para compreender do que esta emoção era composta. No dia seguinte, comprei o livro, pois queria entender melhor quem eram aquelas mulheres maravilhosas da estória.

"A Garota Dinamarquesa" (ou "A Moça de Copenhague, em edições anteriores) foi o primeiro romance de David Ebershoff, publicado em 2000. O livro mistura ficção com realidade: embora trate de fatos reais das vidas de Lili Elbe e Gerda Wegener, o escritor tomou a liberdade de inserir fatos e informações no meio do enredo, a título de "licença poética", fornecendo detalhes e contextos aos leitores que não necessariamente são reais. A escolha de David em fazer algo misto foi certeira, pois os elementos que ele insere na narrativa deixaram-na sensível e tocante, tal como as personalidades das duas protagonistas.
Lili Elbe foi a primeira pessoa a passar por uma cirurgia de mudança de sexo, no início dos anos 30. (Há relatos de que ela não foi a primeira, e sim, uma das primeiras, mas acredito que isso não venha ao caso, neste momento). Sofreu diversos tipos de preconceito, tanto da sociedade quanto da medicina da época, e, mais ainda, sofreu a angústia de não se sentir normal, de achar que estava enlouquecendo e de tentar entender qual era seu lugar no mundo. É este sofrimento que nos conecta a Lili e nos torna empáticos a ela.
Além disso, acompanhamos a jornada de Gerda, que vê seu marido Einar tornando-se Lili e, ao contrário do que muitos poderiam esperar, lhe fornece todo o suporte, apoio e carinho, em um amor incondicional maravilhoso e inspirador. Gerda é forte, cheia de personalidade e muito autêntica, e gostei dela logo de cara.

No filme, Eddie Redmayne intepreta Einar/Lili em sua mudança de gênero. Ele captou muito bem a personalidade frágil e sensível de ambos (Einar e Lili) e - não sei se por decisão dele ou do diretor - se concentrou nas mudanças de trajes e trejeitos, que é o que visualmente conseguimos apreender melhor em um filme. No livro, a narrativa se concentra mais nos pensamentos e nos sentimentos de Einar/Lili, além de contar certas experiências semi-sexuais que Lili tenta ter ao longo de sua transição. Talvez considerando que tais cenas seriam muito fortes ao público, elas não aparecem no filme.
Alicia Vikander interpreta o contraponto perfeito a Lili, e faz Gerda forte e intensa como ela é. Lili e Gerda são diferentes e, ao mesmo tempo, iguais, pois Gerda também tem um passado difícil e delicado (que não é explorado no filme, somente no livro).
No filme, alguns pontos sexuais são explorados no início, mostrando que Einar e Gerda tinham um casamento feliz, e a forma de demonstrarem esta felicidade no filme foi através das cenas de sexo entre ambos. Particularmente, não gostei destas cenas, pois acho que a intimidade e a felicidade do casal vão muito além do sexo. Depois que li o livro, gostei menos ainda daquelas cenas, pois no livro fala-se das dificuldades de ter relações sexuais entre ambos, pois Einar não sentia vontade.
Outra diferença é que achei que o filme parece mais baseado no ponto-de-vista de Gerda do que de Einar/Lili, enquanto no livro os pontos-de-vista se alternam o tempo todo, deixando-o mais completo.

O livro ou o filme? O livro.

O filme é lindíssimo e merece ser visto. Porém, eu gostei mais do livro, pois ele mostra com mais profundidade os motivos e o processo de mudança de Einar em Lili. No filme, achei que não fica muito claro como acontece a transição - não externa, mas interna - de Einar. No livro, temos relatos desde sua infância mais distante, o relacionamento conturbado com o pai, as dificuldades de se integrar na sociedade, a relutância em começar o namoro com Gerda, e muitos outros detalhes que deixam o pano de fundo mais claro e mais explicado. 
O mesmo acontece com Gerda. Ela passa por uma série de situações tão atípicas que, após assistir o filme, me questionei muito dos motivos por ela ter aguentado tanta coisa ao lado de Lili. Já no livro, a vida dela é contextualizada, seu passado e suas experiências de vida são mostradas com mais profundidade e, então, é possível entender melhor o amor dela por Einar/Lili.
E, exatamente por ambas as protagonistas serem mais exploradas no livro, o relacionamento entre elas - que começa como um casamento e termina como uma grande amizade mal resolvida - fica bem mais interessante, bonito e poético.
É possível explorar esta obra em muitos níveis, que vão além da mudança de gênero de Einar/Lili. Acredito que este tópico seja bastante atual e o mais forte de todos, mas há também a questão do papel da mulher na sociedade através de Gerda e, além disso, o que é ser um artista e como manter a inspiração ao longo da vida. Vale a pena ver o filme, ler o livro e levar os debates adiante, pois é realmente uma obra-prima.


Posts Relacionados

Comente com o Facebook

3 comentários

  1. Esse filme está encantando o mundo inteiro. Desde de que eu ouvi comentários sobre esse livro fiquei super interessado. Uma história forte. Polêmica. E ao mesmo tempo, delicada, envolvente e encantadora. Tudo isso eu percebi apenas vendo o trailer, imagino que o livro deve ser mil vezes mais intenso.

    Ah, já saiu a resenha do seu livro lá no blog \ooo/

    Confere lá:

    Blog Decidindo-se \o/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tem coisas que fazem sucesso e eu não entendo bem porquê, mas este livro, com certeza, merece todo o hype. É lindo de morrer!

      Nhóim, e eu não vi?! Amei cada palavra! <3

      Excluir
  2. Oi, Ruh.

    Então, eu tenho uma relação muito séria de desgosto com o filme. De início, quando começaram a falar nele, eu achei sensacional - mas aí muitas transexuais começaram a se manifestar e dizer o quanto a narrativa não as representava, e foi aí que eu percebi que o filme conseguiu vender uma ideia tão romantizada de uma não-representação que, olha, merece prêmio só por isso. Sem falar que o filme peca muito com a questão de gênero e sexualidade. Pelo que andei lendo, na verdade, a Lili nem era transexual, mas intersexo - ou seja, a história (tanto a original quanto a adaptação) maquiou muita coisa real ao gosto do público. O fato de um ator ter conseguido o papel ao invés de uma atriz trans real já diz muito, e nem vou continuar.

    Eu teria gostado mais do livro também, acho bom esses pontos de vistas em alternância :)

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

    ResponderExcluir