Vamos Falar Sobre HQs Brasileiras

Hoje o post é especial e escrito pela convidada do Perplexidade e Silêncio, a Deborah Mundin. Falaremos um pouco sobre o mercado das His...


Hoje o post é especial e escrito pela convidada do Perplexidade e Silêncio, a Deborah Mundin. Falaremos um pouco sobre o mercado das Histórias em Quadrinhos no Brasil e quais são os títulos que mais tem chamado sua atenção (e que você também deveria ler!).

Deborah Mundin, além de convidada deste blog, também mantém o interessantíssimo Constantemente Inconstante. Além de parceira de vida, Deborah também me acompanha nas antologias que escrevemos para a Editora Wish.

Antes de tudo, vamos pontuar algumas definições: 
(a) HQ, história em quadrinhos, designa-se para uma história que tem uma continuidade periódica (semanal, mensal, quando a editora quiser); 
(b) Graphic Novel designa-se para uma obra que compila a história inteira, pode ter continuações, mas os arcos costumam ser fechados em uma única edição. Essa compilação fez com que as graphic novels tivessem as características necessárias para ter um ISBN, entrando em livrarias e dando uma característica mais adulta às obras.
Vou usar os termos corretos neste post? Possivelmente não, mas saibam que eles existem.

Nós, leitores brasileiros, geralmente iniciamos o amor pelos livros através da leitura dos gibis da Turma da Mônica. É algo que está tão ligado à infância que acabamos por não consumir quadrinhos nacionais quando adultos, até aceitamos as HQs adulta gringas, como Sandman ou Sin City, mas costumamos acreditar que nacional é só gibi, e é sobre isso que vamos conversar. 

A Mauricio de Souza Produções, que está se diversificando e acompanhando o crescimento de seu público, entrou para esse universo em 2012 com o lançamento do selo Graphic MSP, são histórias dos já conhecidos personagens, mas que seguem um estilo diferente de roteiro e arte, já que cada fascículo é desenvolvido por artistas diferentes. Uma das coisas mais interessantes nesse selo é que foge um pouco dos personagens principais, dando espaço para alguns que sempre foram coadjuvantes ou que
ganhavam pouco espaço nas historinhas. Dois que me chamaram bastante atenção foram:

"Tina - Respeito", de Fefê Torquato: A história é sobre a Tina recém formada em jornalismo, que realiza o sonho de entrar numa grande redação e lá depara-se com o assédio. Há um fato bem marcante, mas toda a história é permeada por “pequenos” momentos de machismo: seja no voltar para casa, na insegurança da personagem, mesmo já sendo uma freelancer conhecida, na forma como a tratam dentro da redação, esse são pequenos pontos que, ouso dizer, toda mulher irá se identificar em alguma esfera, e você homem, também deveria ler para entender como as coisas acontecem antes de dizer que aquela colega de trabalho está “exagerando”.

Uma historia sobre assédio, sororidade e empoderamento.
A HQ é toda em uma aquarela delicada e com diálogos fortes que deixam sua marca. Um trabalho
primoroso.

"Jeremias - Pele", de Rafael Calça e Jefferson Costa: Jeremais ganha pela primeira vez uma história pra chamar de sua e o roteiro do Rafael combinado com a arte do Jefferson torna essa estreia magnífica que rendeu o Prêmio Jabuti na categoria Histórias em Quadrinho em 2019.  Jeremias, aos 10 anos de idade, começa a sentir a realidade da sociedade racista em que vive (vivemos). É forte, é tocante e é tão visceral que mesmo sendo uma realidade diferente da minha, foi impossível não me conectar e me emocionar. Uma HQ necessária para começar a abrir os olhos de quem ainda vive no mito da democracia racial e principalmente para discutir racismo estrutural com crianças.

Esses foram dois exemplos de HQ dentro de um grande selo, mas há uma gama de quadrinistas independentes que produzem, imprimem e distribuem suas próprias HQs. As vezes com financiamento coletivo, outras com uma pré-venda ou em pequenas editoras, como:

"Dora e a Gata", de Helô D’Angelo : Nessa HQ acompanhamos a vida de Dora assim que ela adota a Gata, uma felina bem fora do comum, que irá ajuda-la e acompanha-la numa jornada de autoconhecimento e aceitação. A HQ aborda temas como insegurança, relacionamento abusivo, violência doméstica de forma séria, porém sem tornar a história pesada, há sempre um sopro de leveza e esperança. Com um final pra lá de interessante, Dora e a Gata sai do comum e nos deixa com a sensação gostosa de ter visto um bom filme.
(Nota da Rúbia Dias: Eu conheci a Helô D'Angelo através de um artigo incrivel que ela escreveu para a revista Superinteressante entitulado "Como não ser machista" que pode ser lido aqui).

"Bittersweet", de Mary Cagnin: Momento de respirar fundo e segurar o lado fã. Traduziria Bittersweet como uma das melhores coisas já criadas nessa face da Terra. Mary Cagnin, conte comigo pra TUDO! 
Com temática LGBT, de uma sensibilidade e naturalidade que enche o coração, não segue o padrão “descoberta e preconceito” que geralmente permeiam historias desta temática, Bittersweet é sobre vivência de amores. Trata também sobre saúde mental e superação e a arte é a coisa mais linda. 
É possível ler ela inteira no instagram da Mary, mas recomendo o livro físico por ser uma historia que dá vontade de ler e reler e reler.

"Batatinha Fantasma – Amor em quadrinhos ", de Carol Borges e Filipe Remédios: Para quem curte o estilo tirinhas esse livro é um compilado de tirinhas desse casal que poderia ser todos os casais. Batatinha Fantasma é um projeto que Carol e Filipe iniciaram uns dois anos atrás que trazem semanalmente tirinhas sobre a vida de casal, então falam de amor, de manias e da construção da relação de forma leve com boas doses de humor. Indico o Instagram do Batatinha Fantasma para conhecer esse trabalho gostosinho.

“Ah, Deh, legal isso aí, mas eu só leio coisas que ganharam prêmios internacionais, sabe?!” Quer prêmio?! Então toma!

"Cumbe", de Marcelo D’Salete: Ganhador do prêmio Eisner em 2018, Cumbe narra a história dos negros escravizados no período colonial brasileiro. Há um embasamento de onze anos de pesquisa sobre Palmares realizado pelo autor, que deu origem a outra graphic chamada Angola Janga (que recomendo fortemente).  Em Cumbe, Marcelo narra quatro histórias sobre resistência, algumas finalizadas com tom de esperança e de forma poética. Mas não se engane: não tem aquele pano passado, igual nas nossa aulas de História do ensino fundamental. A narrativa é ancorada em pesquisa histórica, então se prepare para o choque de perceber que há todo um lado de uma historia de 300 anos que nunca nos foi contada.


Esses são apenas a "mini ponta" de um iceberg dentro do mercado das HQs nacionais, então, fica aqui minha lição de casa pra vocês: busquem, curtam e consumam histórias contadas por nós brasileiros, e não digo apenas de HQ, mas na literatura e no áudio visual, porque tem muita gente criando coisa de qualidade e nosso viralatismo nos cega para essa realidade. 

É isso, minha gente, espero que eu tenha despertado a curiosidade de vocês para esse mundo maravilhoso da nossa produção cultural.

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