Desafio Livros pelo Mundo | Nigéria: Americanah, de Chimamanda N. Adichie

O Desafio Livros pelo Mundo tem como objetivo divulgar a literatura de países fora do eixo EUA-Inglaterra. No post de hoje, o 18º país r...


O Desafio Livros pelo Mundo tem como objetivo divulgar a literatura de países fora do eixo EUA-Inglaterra. No post de hoje, o 18º país representado é a Nigéria, com seu excelente "Americanah" de Chimamanda Ngozi Adichie.


É impossível não dedicar um espaço do post para falar sobre Chimamanda. Nascida em Enugu, na Nigéria, ela é a quinta de seis crianças igbo, um grupo étnico do centro-sul e sudeste deste país. Ela estudou Medicina por um ano e meio, quando decidiu ir para os Estados Unidos formar-se em Ciências Políticas. Também formada em Escrita Criativa e Estudos Africanos, Chimamanda logo tornou-se referência quando o assunto é raça, empoderamento feminino e preconceito.

"Americanah" é seu terceiro romance, publicado em 2013. A obra conta a estória de Ifemelu, uma nigeriana também igbo que decide mudar-se para os Estados Unidos, não só por causa da perspectiva de obter um estudo melhor e, consequentemente, um bom emprego, como também na tentativa de encontrar um lugar ao qual se sinta pertencente. O livro começa anunciando que Ifemelu, depois de treze morando nos Estados Unidos, decide retornar à Nigéria, a despeito de todo o ceticismo de amigos e familiares próximos, que acreditam ser uma decisão errada. Ela entra em um salão de beleza especializado em cabelos crespos para fazer uma trança e se depara com mulheres desagradáveis e um ambiente sufocante.

O enredo vai-e-volta no tempo, ora descrevendo o passado de Ifemelu, ora mostrando seu presente. A narrativa começa desde sua infância em Lagos, onde conheceu Obinze, seu primeiro namorado. Ifemelu é muito observadora e, desde cedo, aprendeu a compreender a essência das pessoas ao seu redor, através de seus comportamentos e de suas opiniões. Na adolescência, incentivada por Obinze que é um grande admirador da cultura americana, Ifemelu consegue um visto e vai lá para estudar, enquanto Obinze parte para a Inglaterra. O relacionamento deles termina aos poucos, com o distanciamento de Ifemelu.

Dividirei o livro em três camadas principais, pois ele aborda temas profundos que merecem um olhar mais próximo.

A primeira camada diz respeito ao racismo existente em todos os países, não apenas nos Estados Unidos mas, também, na Nigéria. Ifemelu demora muito tempo até conseguir um bom emprego nos Estados Unidos e, aos poucos, percebe que isso se deve exclusivamente ao fato de ser negra. Bem educada, inteligente, sarcástica e culta, Ifemelu é capacitada para os bons empregos, mas todos a vêem de uma forma inferior devido à sua raça. Para desabafar seu sofrimento, ela começa a escrever, anonimamente, um blog, onde conta os preconceitos que sofreu e suas reflexões sobre o racismo americano. Tais reflexões ficam ainda mais contundentes quando ela começa a namorar um rapaz branco e percebe que é a única negra em seu círculo social. "Americanah" tem um tom político bem forte, discorrendo sobre Barack Obama e escravidão, hispânicos e negros americanos, política e escassez de oportunidades. Chimamanda, assim como Ifemelu, não é sútil nem mede as palavras. Neste aspecto, o trecho que mais me impactou foi quando Ifemelu aponta que a raiva dos brancos em relação ao preconceito com os negros não muda nada, pois não assusta ninguém, ao passo que, quando um negro sente raiva de sua posição, a sociedade sente medo e prefere fingir que isso não aconteceu.

Alguns capítulos são intercalados com o ponto-de-vista de Obinze, o que torna a narrativa rica e interessante. Ele é deportado da Inglaterra e, com isso, traz mais insumos aos trechos políticos da obra.

A segunda camada é a própria Ifemelu. Ela tem uma personalidade incendiária: espontânea, impulsiva, inteligente, coerente e dona de si. É uma maravilhosa personagem feminina. Ao longo da trama, ela enverga sob o peso do preconceito, tornando-se apática, submissa e melancólica, o que incomoda o leitor, sabendo como ela é de verdade. Ifemelu também parece não se encontrar no mundo, pois nem na Nigéria e nem nos Estados Unidos encontra pessoas com as quais se sente confortável. Neste ponto, o enredo torna-se repetitivo, pois ressalta como Ifemelu se sente inadequada em todos os círculos sociais dos quais faz parte. Senti falta de uma explosão de fúria ou de uma atitude drástica de Ifemelu, que parece conforma-se com o status quo.

E, por fim, a terceira camada é a estória de amor de Ifemelu e Obinze. Ifemelu decide se afastar de Obinze quando tem uma experiência breve de prostituição nos Estados Unidos para conseguir pagar o aluguel. Sentindo-se suja e culpada, ela desaparece, sem dar notícias para Obinze que, a esta altura, já estava na Inglaterra. Senti que, mais do que retornar para a Nigéria, Ifemelu desejava voltar para Obinze. Casado e com filhos, Obinze ficou rico vendendo e comprando terras na região de Lagos, mas não perdeu sua essência de homem honesto e honrado, o que lhe confere um certo ar de princípe encantado. A estória de amor deles é muito bonita, sobretudo por causa da sinceridade e da personalidade forte de Ifemelu, que apimenta um enredo que poderia ter caído nos clichês.

Mesmo dividindo o livro em camadas, acredito que qualquer resenha sobre a obra a diminua, mesmo que não intencionalmente. "Americanah" é um livro ótimo, que merece uma leitura aprofundada e detalhada, pois aborda muitas questões importantes. É uma leitura que recomendo!

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