Sugestão de Leitura | Ciclo Terramar, de Ursula K. Le Guin

Falar sobre a escritora Ursula K. Le Guin é sempre um enorme prazer. Em plena década de 60, quando o gênero da ficção-científica era ...



Falar sobre a escritora Ursula K. Le Guin é sempre um enorme prazer. Em plena década de 60, quando o gênero da ficção-científica era dominado pelos homens, ela foi vanguardista e escreveu livros maravilhosos. Falei sobre ela neste post e recomendo conhecê-la melhor, pois ela é incrível. Já sugeri a leitura de "A Mão Esquerda da Escuridão" e, agora, recomendo sua tetralogia, perfeita para quem gosta de Alta Fantasia.

O primeiro volume do Ciclo Terramar é "O Feiticeiro e a Sombra". Terramar é um mundo fictício, onde os magos vão para aprender os princípios e feitiços de sua ordem. Assim, todo o Ciclo gira em torno de Gavião que, neste primeiro volume, ainda é um aprendiz de mago na Escola de Roke. Seu nome verdadeiro é Gued, mas ele não pode contar isso a todos, pois saber o nome verdadeiro de alguém faz com que detenha-se poder sobre esta pessoa (foi neste conceito que Patrick Rothfuss se inspirou para escrever "O Nome do Vento").
Gavião, enquanto está aprendendo sobre o mundo da magia e os antigos segredos de Terramar, acaba liberando, sem querer, um poder maligno que há muitas Eras estava preso. O livro conta não apenas como ele libera este poder maligno, como também o início de sua saga para detê-lo, antes que este poder se espalhe pelo resto de Terramar, disseminando o Mal. No percurso, o leitor é apresentado para um Gavião que não é herói, nem anti-herói e, por isso, ele é um protagonista muito interessante e carismático.

O segundo volume, "Os Túmulos de Atuan", é o meu preferido. O livro começa focado na estória da pequena Tenar. Ela é uma criança que, desde o nascimento, foi considerada a próxima Grande Sacerdotisa de Terramar, pois os fatos ligados ao seu nascimento cumprem uma determinada profecia da região. Assim, desde cedo, ela foi despojada de toda sua identidade e ignorada em todas as suas vontades, pois ela foi forçada aos ensinamentos de Sacerdotisa. Ela é uma personagem delicada e amável, que o leitor logo se vincula. 
Tenar precisa controlar as forças d'Aqueles-Que-Não-Tem-Nome, seres malignos que vivem escondidos no Túmulo de Atuan, um labirinto subterrâneo completamente escuro. Desde criança, ela aprende a decorar os caminhos do labirinto pela Sacerdotisa anterior, pois somente as sacerdotisas podem saber sobre o Túmulo. 
Gavião, em sua busca pelo poder maligno que liberou no primeiro livro, acaba encontrando Tenar e o Túmulo, e a junção de duas personagens tão distintas, com objetivos conflitantes, é incrível.

No terceiro volume, "A Praia mais Longíqua", a missão de Gavião muda. Depois de suas andanças, ele percebe que a magia está morrendo em Terramar e, por isso, tantas criaturas malignas estão dominando o mundo. Neste ponto, ele já virou Arquimago da Escola de Roke, pois alcançou níveis muito elevador de poder. Os encantamentos deixaram de funcionar e alguns Nomes perderam o poder, por causa do uso popular deles (como, por exemplo, água, fogo, ar, etc). 
Nesta nova missão, Gavião se junta ao príncipe Arren. Pessoalmente, não gosto muito de Arren, porque ele tem princípios muito definidos de certo e errado, e prefiro personagens mais revolucionárias. Ele cai de pára-quedas na missão de Gavião pois, na realidade, ele estava apenas levando uma mensagem do Rei sobre a queda da magia, mas não queria participar da busca. Logo, não é difícil imaginar os vários conflitos que ele terá com Gavião.

O quarto volume, "Tehanu - O Nome da Estrela", foi publicado quase 30 anos depois do primeiro e 17 anos depois do anterior e, talvez por isso, tanto o ritmo quanto a forma de escrever de Ursula estão diferentes. Neste livro, Gavião reencontra Tenar, a aprendiz de Sacerdotisa do segundo volume. Confesso que me decepcionei com o futuro de Tenar, pois esperava muito mais dela (não entrarei em detalhes para não dar spoilers). 
A narrativa tem um tom mais melancólico e mais íntimo, pois Ursula passa a escrever mais sobre a vida interior das personagens, e menos sobre feitiços, dragões e missões. Isto pode frustrar o leitor desavisado e eu mesma tive dificuldades de embarcar nesta nova atmosfera da obra. 
A esta altura, Ursula estava mais aguerrida na luta pelo feminismo (isso lá nos anos 90) e o este livro é como um ensaio sobre o poder da mulher e a opressão do machismo. Por isso, leia esperando por mais reflexões e menos ação e, mais que tudo, não espere um final feliz.

Recomendo muito a leitura do Ciclo Terramar porque esta obra reúne fantasia, misticismo, exploração, feminismo e subjetividade e Ursula K. Le Guin merece ter seu nome reconhecido. Go, Girl!

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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