Desafio Livros pelo Mundo | Finlândia: Memória da Água, de Emmi Itäranta

No Desafio dos Livros pelo Mundo deste mês, resolvi falar sobre um livro que foi uma grata surpresa: Memória da Água , da escritora finl...


No Desafio dos Livros pelo Mundo deste mês, resolvi falar sobre um livro que foi uma grata surpresa: Memória da Água, da escritora finlandesa Emmi Itäranta.


Este é primeiro livro publicado de Emmi e ela começou sua carreira profissional de escritora com o pé direito. Apesar de ser ambientado em um futuro distópico, a narrativa é fluída, delicada e, ao mesmo tempo, forte - e, aqui, estou deliberadamente fazendo uma analogia com a água.

Neste futuro distópico, a água salgada dos oceanos e dos mares inundou todos os continentes do planeta e, com isso, poucos trechos de terra ainda existem. Tais trechos compõem o império de Nova Qiann. A economia desta sociedade é baseada na água potável, cada vez mais difícil de ser encontrada. A água é regulada pelos militares para a população, tornando-se a moeda corrente do império. Quando alguém encontra e se utiliza de uma fonte de água potável sem a autorização dos militares, esta pessoa (ou família) é acusada de cometer o "crime da água" e são sentenciados à morte por execução.
Além disso, algumas outras dicas de como seria uma sociedade baseada na água são dadas aos leitores: muitos mosquitos, tecnologia baseada em luz solar, não existe mais petróleo, rotinas diferentes no dia-a-dia das famílias e outras extrapolações muito bem pensadas por Emmi.

No livro, conta-se a estória de Noria, filha de um mestre do chá reconhecido e tradicional do império. Os mestres do chá são profissionais muito respeitados na sociedade, pois possuem uma tradição de milênios na arte de cuidar das águas e de manipular a água com veneração. Eles também são responsáveis por zelar pelas nascentes de água, que tornaram-se fontes de riqueza para os militares em Nova Qiann. Os mestres do chá, além disso, são as únicas pessoas que tem o direito de receber uma quota extra de água potável, para que possam executar as sagradas cerimônias do chá.

Em um determinado momento, Noria se vê sozinha, longe de seu pai e de sua mãe, uma pesquisadora. A estória fala pouco sobre sua mãe, demonstrando que a figura principal do círculo familiar de Noria é seu pai. Ela, então, só pode contar com a ajuda e a companhia de sua melhor amiga Sanja, que reside nas proximidades de seu vilarejo.

A situação de Noria se complica quando ela descobre que há uma nascente de água potável que é mantida em segredo por várias gerações de mestres do chá, incluindo seu pai. Ela rapidamente percebe quais seriam as implicações para ela e sua família caso os militares descobrissem este segredo, e todos correm grande perigo por causa desta nascente.

O leitor precisa estar ciente de uma coisa para não se frustrar com a leitura: o objetivo de Emmi não era o de discorrer sobre o mundo distópico, tampouco se aprofundar na ficção especulativa. Por isso, o livro não é uma ficção-científica como muitos podem esperar, e sim, um romance. O enredo foca na simbologia da água, nas tradições das cerimônias do chá, na história dos mestres do chá anteriores ao pai de Noria e, mais além, na solidão e nas relações interpessoais dela. Portanto, não há cenas de ação e momentos de futurismo.

O livro é poético e bonito. Emmi faz analogias lindas sobre a água e há diversos trechos recheados de melancolia, intimismo e lirismo. Noria é uma garota determinada e bondosa que, por mais que sofra muitas adversidades, mantém-se firme e decidida a manter a tradição e a honra dos mestres do chá. Há passagens muito bonitas sobre os segredos que as pessoas guardam, a solidão e a morte. A relação de Noria com Sanja é cheia de nuances e camadas: quando o leitor acha que percebeu tudo o que existe entre as duas, aparece algo novo para nos fazer refletir novamente.

Em certo sentido, este livro me lembrou "Não me Abandone Jamais", de Kazuo Ishiguro. Ambos, embora tenham um plano de fundo distópico, se concentram na subjetividade das pessoas que vivenciam aquele cenário, aprofundando seus pensamentos, dúvidas, sentimentos e relacionamentos. Gosto muito deste estilo, tornando distopias em estórias mais sensíveis e individuais.

O ritmo da narrativa é lento, mas Emmi fala logo no começo do livro sobre a água ter seu próprio ritmo e fluir como acha que deve. Acredito que a escritora tenha tentado imprimir esta mesma velocidade ao enredo. Alguns acharam moroso, eu achei fascinante.

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4 comentários

  1. Eu achei esse livro maravilhoso, justamente por se faz o contrário do comum quando se pensa em distopia. Como você disse, ele segue a a analogia da água e, portanto, tem um ritmo totalmente próprio, ora lento, ora corrente. Também o achei fascinante! Um daqueles livros que guardam todo um sentido e significado abaixo da superfície e que, infelizmente, pouco entendem e encontram beleza. Acho que ele tem um cunho bastante suave de existencialismo, o que torna tudo mais humano e universal.

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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    1. Achei este livro muito a sua cara e ele tem quotes lindas, sempre pensava em você enquanto lia <3

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  2. Só queria te perguntar uma coisa: como você tem feito para achar livros de tantos países? Ainda mais em português. Você simplesmente pesquisa no Google ou achou alguma lista? E você encontra bastante opção?

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    1. Na verdade, Aline, foi ao contrário: comecei a olhar na minha biblioteca quais livros que eu tinha lido eram de outros países, e aí comecei a fazer os posts. Tem alguns países que, claro, não li nada de lá, mas ainda tem uma meia dúzia de países para postar.

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