Delicadezas

A manhã mal havia começado - eu ainda estava sonolenta, caminhando para o ponto de ônibus, rumo ao trabalho - e já haviam me chamado de ...


A manhã mal havia começado - eu ainda estava sonolenta, caminhando para o ponto de ônibus, rumo ao trabalho - e já haviam me chamado de estúpida e idiota. O sol subia ao céu devagar, prometendo um longo e quente dia pela frente, e já era possível ver o vapor abafado exalando do asfalto. O barulho na avenida adiante era alto e me sufocava mais do que o próprio calor, barulho este que era resultado de centenas de carros apressados e de pessoas atrasadas.
Mas eu não fazia parte de nada disso: calmamente, andava com passos curtos ao longo da minha rua, lendo um livro e sem pressa (nem vontade) de fazer parte do mundo. Minha sonolência era, antes de tudo, um desejo irremediável de continuar introspectiva pelo resto do dia, sem compromissos nem relacionamentos interpessoais a cumprir. Imersa nos meus próprios pensamentos, demorei alguns minutos para compreender que sim, era eu quem estava sendo chamada de estúpida e idiota. 
Aqui, resumi as acusações gritadas para mim, porque não faço questão de ficar ruminando esta recordação por muito mais tempo dentro da minha cabeça, já ocupada demais com a avalanche de pensamentos diários que produzo sozinha. O que lembro se sintetizou, basicamente, em um moço andando de bicicleta, passando por mim em uma velocidade razoável. Ele veio bradando ofensas de alguns metros atrás de mim, mas, naquele momento, ainda não tinha notado que ele se dirigia a mim. Quando, finalmente, percebi que eu havia sido inserida contra minha vontade naquela cena absurda, escutei "estúpida", "idiota" e alguma coisa sobre minhas tatuagens.

Eu, Ruh Dias, caminhando pela Praia do Forte, em São Francisco do Sul (SC)
Aparentemente, eu era estúpida e idiota por tê-las. Também ouvi, vagamente, algo sobre eu ter me estragado e ser feia por causa delas. Mais ou menos isso, não exatamente nesta ordem. A corrente de xingamentos começou muito antes de eu estar prestando atenção e terminou muito depois de o moço ter passado por mim em sua bicicleta.
Levantei os olhos do livro para ver o que estava acontecendo, tentando apreender se aquela experiência realmente era comigo. Nisso, o moço se afastava. Não, não o xinguei de volta, tampouco retruquei, nem sequer me abalei com todos aqueles impropérios. Meu dedo marcava onde a leitura tinha sido interrompida por aquela avalanche de ofensas e eu, apenas, retomei o parágrafo dali.
Quando, finalmente, cruzei a avenida e cheguei ao ponto de ônibus, todo aquele cenário - os carros, o moço da bicicleta, o barulho, o calor sufocante - fez eu sentir, como sempre, que estava no lugar errado do mundo. Mais adiante, ouvi uma discussão entre um motorista e um pedestre sobre quem tinha direito a atravessar a rua, seguida de vários palavrões e ofensas pesadas. O sinal vermelho ficou verde e a gritaria de ambos se perdeu em meio ao restante do caos que estava estabelecido ali.
Me perguntaram porque não revidei as acusações para o moço da bicicleta: senti, naquele momento, que eu precisava responder ao mundo com delicadeza. E a minha delicadeza foi permanecer em silêncio .
Todos já notaram que o mundo anda duro, seco e áspero. Parece que a superfície das coisas e das relações se desgastou a ponto de virar pedra e ponta. Decidi, naquela manhã esquisita e atribulada, que não quero ser mais uma pedra no caminho de ninguém, muito menos no meu. Quero ser água e vento, pois ambos enfrentam as superfícies das pedras sem se abalarem. Quero fazer parte das suavidades e das gentilezas, do que é feito de pena e sopro.

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4 comentários

  1. Ai, meu Deus, cê é amor demais, moça. Até parece eu (mas, no meu caso, sou somente trouxa mesmo haha).
    Tenho vontade de fazer tatuagens, mas não desenhos. Acho que o único símbolo que faria (na verdade, quero muito fazer) é uma âncora, pois sou apaixonada pela simbologia. A minha primeira tatuagem vai ser "expecto patronum". Tenho uma lista de frases que quero fazer, quase todas de músicas.
    Não dá pra acreditar que, em pleno 2016, o pessoal ainda tenha esse tipo de pensamento, né? No ano novo, ouvi uma senhora dizer que "até acha bonito", mas que, se tem muitas, a pessoa parece suja. Eu acho lindo, porque o corpo é a nossa tela e temos o direito de nos expressar através dele, né. Seja com tatuagem, cabelo colorido, whatever. O corpo é nosso.
    Mas, enfim, na maior parte do tempo eu também não respondo ninguém (é a minha parte trouxa falando haha). Sou pacífica (e até apática) demais. Não sei reagir às pessoas, ainda mais se são ofensas, só guardo pra mim, deixo quieto por um tempo e choro quando for a hora (dependendo da ofensa).
    Acho que a gente tem mesmo que deixar pra lá, porque certas coisas não valem nem o nosso pensamento.

    Obviamente, belo texto, nem preciso dizer, cê já sabe hahaha.

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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    1. Falta tanto ainda para a humanidade evoluir, né? Nos concentramos muito emm evoluir tecnologicamente, cientificamente, etc e deixamos de lado outras coisas importantes. Mas, faz parte da vida!
      Sim, super apoio suas tatuagens, precisamos ser quem nos tornamos ao longo da vida!
      Um beijo grande!

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  2. Oi, Ruh!
    Que texto lindo. Gosto muito da sua maneira de escrever com sensibilidade e do seu posicionamento no mundo. Inspirador!
    Sinta-se abraçada. Muita luz pra ti...
    Blog do Ben Oliveira

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    1. Olá Ben!
      Fico muito contente que tenha gostado do texto, e obrigada pela visita!

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