Castelos na Praia

Ela equilibrava quantidades de areia, com uma mão muito pequena, realizando um trabalho ingrato na tentativa de construir seu castelo ...


Ela equilibrava quantidades de areia, com uma mão muito pequena, realizando um trabalho ingrato na tentativa de construir seu castelo na beira da praia. Mal conseguia emprestar alguma forma à massa disforme: o mar vinha - violentamente, cruelmente, parecia mesmo que de propósito - e levava o esboço de castelo embora consigo. Engolia cada pedaço de sonho que era colocado em cada grão de areia. Engolia também pequenas conchas, que enfeitavam o castelo. E mesmo com suas mãos pequenas e seu coração apertado de desgosto, ela não desistia: porque ela sabia que era possível construir um bonito castelo de areia na beira da praia.

Não significava somente uma brincadeira de criança de verão. Era aquela menina dizendo ao mundo (e àquilo que havia de destruidor nele) que sempre haveria uma pessoa disposta a enfrentá-lo. Ela seria teimosa. Havia, ainda, no que acreditar de bonito e puro, e enquanto ela lutasse contra o mar, e lutasse em fazer seu pequeno castelo, todos os corações do mundo poderiam sorrir com esperança. Ela continuaria reunindo montes de areia, com suas mãos pequenas, embaixo de um céu azul de calor.

***

Ele olhava, em silêncio e de uma certa distância, as tentativas da menina de construir seu castelo com conchas. Observava que ela ia e vinha carregando areia em mãos pequenas, e não se abalava mesmo quando o mar engolia as criações bonitas que conseguia fazer. E de dentro do seu silêncio, aquela cena ia tomando forma, tomando corpo, e preenchendo pequenos espaços vazios. Mal se dera conta do tempo que havia passado observando as inúmeras tentativas da menina, pois a persistência dela, de alguma forma que ele nunca saberia explicar, lhe acalmava. Lhe acendia uma esperança: ainda existia quem lutava pelas coisas bonitas e puras do mundo. Era quase como se ele ouvisse os pensamentos que ela não dizia.

E então lhe veio um impulso, inesperado e desajeitado, de ajudar a menina em sua construção. Não tinha as maiores mãos do mundo, e suas mãos eram, às vezes, inarticuladas, mas era como se soubesse que unindo os dois silêncios, o castelo, então, seria construído. Ele ficou por perto, enquanto ela não desistia do seu castelo. 

O mar veio, pela décima vez, arrancando a estrutura de areia do lugar. 

***

Ela o olhou: com aquele jeito tímido de quem não sabe pedir ajuda, porque está acostumado a ser forte sozinho. Uma vez que se passa o verão enfrentando o mar sem mais ninguém ao seu lado, acostuma-se. E é com surpresa que se recebe a notícia de que há alguém também querendo construir um bonito castelo. Mas ela o olhou mesmo assim, e pediu ajuda mesmo assim - mesmo com toda a dificuldade, e mesmo com todo o silêncio - e ele se aproximou dela mesmo assim. Porque o silêncio dela era exatamente o mesmo que o dele. 

E não foi necessário que trocassem nenhuma palavra, pois no momento em que ele começou a ajudá-la na construção do seu castelo - indo e vindo ao lado dela, trazendo montes de areia, fazendo cara feia para o mar e persistindo naquele pequeno pedaço de sonho - ela soube:

Aquele seria o castelo mais bonito que houve na beira daquela praia.

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