Sugestão de Leitura | Arquivos Têmis, vol. 1: Gigantes Adormecidos, de Sylvain Neuvel

Não tem coisa que me deixa mais satisfeita do que encontrar uma nova trilogia de ficção-científica para acompanhar. A trilogia "Arq...


Não tem coisa que me deixa mais satisfeita do que encontrar uma nova trilogia de ficção-científica para acompanhar. A trilogia "Arquivos Têmis", escrita por Sylvain Neuvel, foi uma ótima surpresa e este post é sobre seu primeiro volume, "Gigantes Adormecidos".

Lingüista de formação, Sylvain Neuvel, canadense, nem sempre foi escritor. Ele já vendeu sorvete, descontaminou solos e largou o ensino médio, para onde retornou anos depois. Ele parece ser uma pessoa, no mínimo, interessante, o que refletiu em sua obra.

"Arquivos Têmis" é uma trilogia de ficção-científica que parte do pressuposto de que uma civilização alienígena deixou na Terra, há cinco mil anos, partes de um robô que se completariam formando uma arma com poder destrutivo nunca antes visto. Não sabemos se esta arma foi deixada como defesa para a Humanidade contra algum mal vindo do Universo ou se a própria raça alienígena virá buscá-la em algum momento. Também não sabemos se a tal raça retornará à Terra e com qual intenção.

Antes de contar sobre a estória, quero falar sobre o formato narrativo deste livro. A estória é contada através de relatórios e entrevistas das pessoas envolvidas na escavação do robô - um lingüista canadense (Vincent, igual a Sylvain), dois ex-militares (Kara e Ryan), uma geneticista (Alyssa) e uma médica (Rose Franklin). Tais relatórios e entrevistas são fornecidos a um homem, cuja identidade e nome não são revelados em nenhum momento, que parece ser o coordenador do projeto e é quem intermedia as relações da equipe com o governo norte-americano, através do Secretário de Segurança. No começo, estranhei bastante a narrativa, pois o leitor conhece os fatos a partir dos relatos da equipe e precisa fazer algumas inferências e extrapolações. Porém, passada a minha estranheza, fiquei completamente tomada pela leitura e devorei o livro em dois dias.

Quando criança, a Dra. Rose Franklin encontrou uma mão metálica gigante em seu quintal, depois de uma pequena explosão causada por "uma luz azul". Anos depois, a própria Rose encabeça a equipe de resgate das demais partes do robô, no projeto que virá a ser nomeado como Arquivos Têmis. Maternal, cautelosa e protetora, ela é o oposto de Kara, a militar responsável por dirigir os helicópteros que recuperam as peças. Kara é indomável, impulsiva e desbocada, mas extremamente comprometida com a missão. O co-piloto de Kara é Ryan, um militar conservador bem aos moldes do Capitão América, o que ressalta ainda mais a personalidade de Kara. Vincent, no início apenas um coadjuvante, mostra-se um ótimo anti-herói, e a geneticista Alyssa vem como a antagonista que a equipe precisava para que se gerasse conflito no enredo.

O nome Têmis veio quando, após descobrirem a cabeça do robô, a equipe percebeu que era uma criatura do sexo feminino e sem olhos, assim como a Deusa Têmis, a Justiça. Também ventila-se uma passagem da Bíblia que diz que a Terra, no início, era habitada por gigantes - seis do sexo masculino e seis do sexo feminino - e tal passagem parece ser confirmada com uma inscrição encontrada na robô e decifrada por Vincent. Achei esta teoria muito interessante e me deixou ainda mais entretida no livro.

O entrevistador misterioso precisa lidar com os conflitos da equipe (interesses pessoais, mortes, amores não correspondidos, acidentes) e, ao mesmo tempo, impedir a Terceira Guerra Mundial. Diversos países desejam a posse da robô, devido ao seu ato poder de guerra, e muitos acordos e tratados precisam ser feitos para que a Guerra não aconteça. Ele tem uma personalidade ótima: sarcástico, frio, racional e calculista mas que, às vezes, transmite brevemente o afeto que criou pelos membros da equipe.

As personagem foram muito bem desenvolvidas por Sylvain. Como só a conhecemos a partir dos relatórios e das entrevistas. Sylvain fez um trabalho brilhante pois, mesmo com este distanciamento das personagens, é possível apreendê-las e criar vínculos. A forma de falar de cada uma, a maneira como elas reagem ao entrevistador, o ponto-de-vista que dão para os acontecimentos - tudo isso muda completamente de relatório a relatório, o que mostra um trabalho muito sólido de Sylvain. 

Além disso, as personagens femininas são completamente badass, o que sempre faz o livro ganhar muitos pontos. Além de as mulheres serem as figuras centrais da trama (incluindo a robô), elas também ocupam cargos de poder - por exemplo, tanto a presidente dos Estados Unidos quanto a Secretária de Segurança são mulheres. Todas elas vão na contramão de todos os clichês de personagens femininos e são maravilhosas. 

Com tudo isso, não teve como não amar este primeiro volume e estou muito ansiosa para ler o próximo, "Deuses Renascidos"
Este livro também me lembrou o excelente "O Problema dos Três Corpos" de Cixin Liu.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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