Já Li #69 - Uma Dobra no Tempo, de Madeleine L'Engle

Alguns livros nos transportam direto para alguma época específica de nossas vidas e, no caso de "Uma Dobra no Tempo" de Madel...


Alguns livros nos transportam direto para alguma época específica de nossas vidas e, no caso de "Uma Dobra no Tempo" de Madeleine L'Engle, esta época é a infância. A resenha de hoje é sobre ele, uma obra para a público infantil que tem muito a dizer para os adultos.

Madeleine L'Engle, nascida dos anos 20, era considerada muito tímida e "estúpida" pelos seus professores. Começou a registrar seus pensamentos em diários e só teve uma obra sua aprovada e publicada depois dos 40 anos de idade. Madeleine teve três filhos - dois biológicos e um adotado - e eles lhe inspiravam a escrever estórias para o público infantil.

"Uma Dobra no Tempo" foi originalmente publicado em 1962, depois de ser rejeitado por 26 editoras. Madeleine acreditava que seu livro tinha sido rejeitado pois trazia uma protagonista feminina em uma estória com background de ficção-científica, e "o mundo não estava pronto para isso". É o primeiro de uma série de cinco livros, série esta que terminou de ser publicada em 1989. Em todos os volumes, os protagonistas são os irmãos Meg e Charles Wallace Murry e Calvin O'keefe.

Meg tem treze anos e é vista como encrenqueira e teimosa, pois tem uma personalidade forte. Seus pais, ambos cientistas, incentivam seu comportamento crítico e não concordam com o tratamento que a garota recebe na escola. Além de Meg, eles tem um casal de gêmeos (que mal aparecem na narrativa) e Charles Wallace, um menino de cinco anos que é capaz de ler a mente das pessoas e tem um QI acima da média. O pai deles, um físico renomado chamado Alexander, está desaparecido há cerca de um ano, mas a mãe deles, Katherine, não parece tão preocupada, e as crianças começam a desconfiar que os pais estão guardando um segredo.

Um dia, eles recebem a visita da excêntrica vizinha Sra. Quequeé. Ela deixa escapar algo sobre um tesserato e, diante da reação de Katherine, as crianças confirmam suas suspeitas e decidem ir atrás do pai. Com a companhia de Calvin, um amigo de escola, eles vão até a casa da Sra. Queequé, onde conhecem a Sra. Qual e a Sra. Quem - ambas igualmente excêntricas. O tesserato gera uma dobra no tempo e, através desta obra, todos eles viajam pelo Universo para encontrar e resgatar Alexander.

Uma das partes mais interessantes da estória é quando o grupo chega ao planeta de Camazotz. Madeleine, então, mistura fantasia com distopia e cria um mundo onde todas as pessoas fazem tudo igual, todos os dias, do mesmo jeito e no mesmo horário. Não há sentimentos de nenhum tipo - nem positivos nem negativos, apenas um estado perene de apatia e aceitação - nem raciocínio crítico, tampouco diversidade. Sem dúvida, ainda mais nos dias de hoje, este enredo gera muito debate e reflexão e trouxe uma profundidade maior à estória.

Fora isso, Madeleine se valeu da clássica luta entre o Bem e o Mal, o que resulta alguns momentos bem criativos e outros, no entanto, que são clichês. As três crianças e as três Sras. precisam impedir que a Escuridão tome conta da Terra e evitem o que aconteceu em Camazotz e, para isso, precisam do tesserato e da ajuda de Alexander. As cenas de ação decorrentes deste conflito são legais, mas nada que tire o fôlego do leitor.

A parte fantástica fica predominantemente nas mãos das Sras, que são personagens muito interessantes. A Sra. Queequé tem 2.379.152.497 anos, 8 meses e 3 dias de idade, e é considerada a "mais nova" das três. Elas mudam de forma física conforme o planeta onde estão e deixam subentendido que cumprem missões de luta contra a Escuridão por todo o Universo. A Sra. Qual tem dificuldades de manifestar-se de forma corpórea e é, na maior parte do livro, uma luz piscante. Cada uma delas tem suas particularidades e personalidade, o que deixa a leitura mais atraente.

A sensação que tive ao ler este livro é de que ele foi "corrido". Madeleine poderia ter elaborado mais descrições, desenvolvimentos, aprofundamentos e conflitos ao longo da narrativa, tornando-o mais completo. Além disso, sua linguagem é simples, direta e explicativa, própria para o público infantil - e é preciso ter este público em mente ao longo da leitura, para não cairmos no erro de achar seu estilo muito simplista. Mas nada disso tira o mérito da obra, que é marcante, original e cheia de conteúdo para ser explorado.

É uma leitura que recomendo.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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