O livro ou o filme? | A Ilha do Medo, de Dennis Lehane

Dennis Lehane , embora não seja muito conhecido do grande público, é um escritor norte-americano que já teve diversos livros adaptados p...


Dennis Lehane, embora não seja muito conhecido do grande público, é um escritor norte-americano que já teve diversos livros adaptados para o cinema, filmes estes que foram aclamados pela crítica como, por exemplo, "Sobre Meninos e Lobos". Escolhi "A Ilha do Medo" para o debate o livro ou o filme deste mês.

Lehane se inspirou no gênero pulp ao escrever "A Ilha do Medo". Pulp é um estilo literário que teve seu auge nos anos 30 e 40. Trata-se de uma literatura popular, "de segunda classe", impressa em papel barato e, geralmente, com temas de crimes e detetives. Lehane também usou como inspiração um porto de Boston que visitou quando criança e que lhe deixou uma negativa lembrança.

Em 1954, Edward "Teddy" Daniels é enviado para Shutter Island junto com o companheiro Chuck Aule. Ambos são detetives e devem investigar o desaparecimento de uma paciente, Rachel Solando, no hospital psiquiátrico Ashecliffe. No quarto de Rachel, eles encontram um código, desvendado por Teddy, que menciona um 67º paciente do hospital, que também está desaparecido. Assim, Teddy e Chuck acreditam que os diretores do hospital estão escondendo um segredo mais violento e resolvem ficar na ilha para investigá-los.

Avançando na estória, Teddy descobre que a verdadeira Rachel Solando - não a paciente que foi supostamente encontrada alguns poucos dias depois à chegada deles - está escondida em uma caverna na ilha. Antes uma médica do hospital, Rachel denuncia que os diretores fazem experiências com psicotrópicos em criminosos, deixando-os loucos e paranóicos. Teddy começa a acreditar que tanto ele quanto Chuck também estão sendo vítimas deste esquema. Teddy também acredita que os pacientes são levados para o farol da ilha para serem lobotomizados.

A adaptação para os cinemas chegou em 2010, com direção de Martin Scorcese, Leonardo diCaprio no papel de Teddy e Mark Ruffalo como Chuck. O filme foi classificado como neo-noir, ou seja, uma versão modernizada dos clássicos filmes de crime escuros e sombrios dos anos 50. De fato, este estilo combina perfeitamente com a estória e a engrandece na tela.

Em termos de enredo, o filme é bastante fiel ao livro. A ordem dos acontecimentos, os eventos principais e mesmo alguns diálogos são exatamente iguais. A interpretação de DiCaprio como Teddy lhe deu mais vida e mais carisma do que seu equivalente no livro. Não gostei tanto da interpretação de Chuck feita por Ruffalo, pois achei que o ator estava um pouco apático na estória do filme, enquanto Chuck tem mais presença no livro.

O livro ou o filme? O filme.

Escolhi o filme por vários motivos. O primeiro deles diz respeito às alucinações de Teddy, quando se recorda da esposa e dos filhos mortos. No livro, tais alucinações são curtas e esporádicas e, se o leitor estiver desatento, elas podem passar desapercebidas. No filme, elas são violentas, intensas e marcantes, o que fará sentido quando chegar no final da estória e descobrirmos quem Teddy realmente é.

O segundo (e maior) motivo foi o estilo de escrita de Dennis Lehane e o formato de narração do livro. A grande maioria das frases começa com "Teddy disse que..." ou "Chuck disse que..." e assim por diante. A leitura foi ficando cansativa e o ritmo do enredo não fluía. Acredito que Dennis devesse ter optado por uma narração em primeira pessoa de Teddy ou, para deixar o final sensacional ainda mais surpreendente, narrado pelo Chuck. A sensação que tive foi de que Lehane criou uma ótima estória, mas teve preguiça (ou falta de técnica) para desenvolvê-la de um jeito atraente.

O terceiro motivo foi que, no filme, os pontos do passado e do presente de Teddy foram interligados de forma mais interessante e instigante, enquanto no livro, alguns trechos "bombásticos", tornaram-se muito descritivos.

Fora isso, a produção do filme elevou a estória a outro nível, tanto nas locações quanto na fotografia, na trilha sonora e na interpretação de DiCaprio. Por isso, recomendo assistir ao filme, mas deixar o livro para lá.

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1 comentários

  1. Assisti o filme e gostei muito. Agora falta ler o livro para tirar minhas conclusões, mas no geral os livros tendem a ser melhores <3

    Toca da Lebre

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