Sugestão de Leitura | Vulgo Grace, de Margaret Atwood

"Vulgo Grace" é a sexta obra da minha musa Margaret Atwood a aparecer aqui no blog. Desta vez, Atwood se baseou em acontecim...


"Vulgo Grace" é a sexta obra da minha musa Margaret Atwood a aparecer aqui no blog. Desta vez, Atwood se baseou em acontecimentos reais de assassinato e fuga, ocorridos no século 19 no Canadá e, a partir deles, criou uma obra de ficção cheia de suspense e mistério.

Caso você queira saber mais sobre a escritora, leia este post especialmente dedicado a ela.

Publicado em 1996, "Vulgo Grace" é categorizado como uma ficção histórica, pois é baseado em acontecimentos reais. Em 1843, Thomas Kinnear e sua criada/amante Nancy Montgomery foram encontrados mortos em sua casa, no interior do Canadá. Grace, criada de Kinnear, e James McDermott, que fazia a manutenção da mansão, foram acusados de assassinato, culminando com o enforcamento de McDermott. O caso ganhou repercussão nacional pois a opinião pública ficou dividida sobre a culpa de Grace, ora tida como assassina fria, ora como vítima ingênua de McDermott. 

Atwood inseriu elementos fictícios à trama, com a inclusão do psiquiatra Simon Jordan. Ele entra na narrativa com o objetivo de descobrir a verdade sobre a culpa ou sobre a inocência de Grace, encontrando-a semanalmente para conversar sobre seu passado. Grace conquistou a simpatia de muitos poderosos e, através dela, conseguiu uma liberdade semi-condicional: de dia, trabalha como costureira na casa do governador da prisão e, de noite, retorna à cela. Simon a encontra na sala de estar desta casa, onde as portas são mantidas abertas em nome da decência e do moralismo.

Grace, confortada com a companhia de um homem inteligente e elegante, conta toda a sua estória de vida a Simon. O leitor acompanha os relatos na mesma posição de ouvinte de Simon. Grace é extremamente detalhista e lembra-se de muitas coisas irrelevantes, o que irrita Simon (e me irritou também). A sensação que se tem destes relatos é que Grace está escondendo a verdade embaixo de camadas e mais camadas de informações inúteis e desorientadoras. Além disso, ela conquista a simpatia de Simon ao contar as principais tragédias de sua vida: o pai bêbado e violento, a mãe que morreu no mar e a melhor amiga que morreu após um aborto mal sucedido.

A personalidade de Grace é, de longe, a parte mais interessante desta estória de assassinato. Às vezes, ela parece ser uma simplória orfã, inocente e enganada por todos as pessoas ao seu redor, ao longo dos anos. Em outros momentos, ela demonstra muita perspicácia e malícia. Fora isso, Grace relata momentos de desmaio e amnésia que, convenientemente, coincidem com os assassinatos de Kinnear e Nancy. McDermott, desde o início do seu relato, é retratado como abusivo e violento, e é muito difícil saber quem realmente cometeu os crimes.

Atwood escreveu o livro a partir dos depoimentos, documentos históricos, relatos e transcrições reais sobre o crime, disponíveis para consulta no Canadá. Este material verídico está descrito ao longo da obra, sobretudo através de cartas e explicações. Estes trechos do livro são narrados em terceira pessoa, e somente as partes de Grace são narradas em primeira pessoa. Há também relatos dos costumes da época, que enriquecem a trama.

Em alguns momentos do livro, alguns paradigmas de machismo e patriarcalismo são bem intensos. Por exemplo, os carcereiros que levam Grace à casa do governador abusam dela, física, psicológica e emocionalmente todos os dias; Simon vê-se obrigado a ter relações sexuais com a senhora dona da casa onde está hospedado, pois sente pena dela; McDermott aparentemente estupra Grace diversas vezes ao longo da trama; entre outros acontecimentos do tipo. Muitos dos atos de Grace são justificados por ela "ser mulher" e, por isso, "instável, vulnerável e dissimulada".

Sobre o crime em si, se você não quer spoilers sobre o desfecho, sugiro pular este parágrafo. Na vida real, Grace foi solta depois de passar 20 anos na prisão, pois foi considerada inocente. No livro, Atwood dá a entender que Grace simula uma esquizofrenia para ser inocentada mas, naquela época, estes conceitos psiquiátricos não existiam e, por isso, as pessoas acreditaram que ela estava possuída por um espírito quando cometeu os crimes. De um jeito ou de outro, a partir desta versão dos fatos, ela conseguiu ser inocentada e enviada aos Estados Unidos.

O clima de mistério e de suspense prendeu minha atenção, assim como a própria Grace. No entanto, é uma leitura cansativa, devido à extensão e ao detalhamento dos relatos dela que mencionei. Atwood manteve o estilo rebuscado de fala e escrita da época, o que achei cansativo, embora necessário para ambientar a trama. Simon também é uma personagem interessante pois, a princípio, parece a figura de um herói quando, no fundo, é covarde e egoísta. É uma leitura que recomendo.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

Navegue pelos outros conteúdos de Margaret Atwood:

Posts Relacionados

Comente com o Facebook

4 comentários

  1. Esse livro é maravilhoso <3
    Amei a sua resenha, ficou completinha =D

    Novamente, parabéns pelo blog, beijão!

    ResponderExcluir
  2. Oi! Eu li a resenha da série e fiquei curiosa para assistir. Já o livro não sei se leria, pela extensa descrição que a história parece ter. Bjos <3

    Click Literário

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pela visita e pelo comentário!

      Excluir