Já Li #43 - O Tom Ausente de Azul, de Jennie Erdal

Desde a época do Ensino Médio, Filosofia é um assunto que me interessa muito. Ao ler algumas resenhas de "O Tom Ausente de Azul&quo...


Desde a época do Ensino Médio, Filosofia é um assunto que me interessa muito. Ao ler algumas resenhas de "O Tom Ausente de Azul", de Jennie Erdal, fiquei curiosa em ler uma obra que misturasse ficção e debates sobre filosofia de um jeito leve e descomplicado. Assim, este post é minha opinião sobre o livro.

Jennie Erdal, durante muitos anos, foi uma ghostwriter, ou seja, era contratada por pessoas para escrever suas obras, mas não era creditada na capa nem em nenhum outro lugar. Depois de vinte anos nesta carreira, que ela revezou com traduções do russo para o inglês, Jennie finalmente resolveu lançar-se como escritora de ficção.

O livro é contado a partir do ponto-de-vista de Edgard Logan. Edgard é apaixonado pelos trabalhos do filósofo David Hume e encontra uma oportunidade de traduzir suas obras do inglês para o francês, sua língua nativa. Para isso, ele muda-se de Paris, onde mora, para Edimburgo. Ao chegar em Edimburgo, ele conhece em uma festa de filósofos um professor chamado Harry Sanderson e sua esposa, Carrie.

No início da narrativa, o leitor é mais apresentado a Sanderson do que ao próprio Edgard. Sanderson está senil e frustrado com sua atividade de professor de Filosofia e, depois que seu caso extraconjugal de doze anos termina, ele fica amargo, emotivo, depressivo e furioso. Edgard, por não conhecer mais ninguém em Edimburgo, não consegue afastar-se de Sanderson, mesmo com sua presença pesada e incômoda. 

Sanderson e Edgard fazem o papel de Sócrates e Platão na estória, onde debatem, argumentam e contra-argumentam teorias de filosofia, que vão desde o já mencionado David Hume até Sartre, Montpellier, Tolstói, Piaget, entre outros. Em seus encontros carregados de negativismo por conta de Sanderson, eles refletem sobre o amor, o casamento, a fidelidade e, principalmente, a felicidade.

"- É, mas você não acha que damos importância demais à felicidade? Tornou-se uma espécie de culto, uma droga. Não concorda? Nos deixa com medo da tristeza. Nós a empurramos para longe." (O Tom Ausente de Azul, de Jannie Erdal)

Aos poucos, o leitor vai conhecendo a história passada de Edgard, através do que ele desabafa com a esposa de Sanderson, Carrie. Edgard sofreu um colapso nervoso na época da faculdade e, desde então, tornou-se uma pessoa fechada e isolada, que teme os relacionamentos interpessoais e os sentimentos que deles derivam. Carrie é o seu oposto: sensível, artista, eloquente, expressiva e aberta. Uma relação de amizade logo se estabelece entre os dois, a princípio com o objetivo de "salvar" Sanderson de si mesmo.

Edgard logo percebe que, em sua jornada para traduzir David Hume, ele irá se re-conhecer. Vários eventos estranhos provocados por Carrie e por Sanderson fazem com que Edgard, aos poucos, abra-se para o relacionamento com ambos, descobrindo novas versões de si mesmo. Ele também passa a questionar a vida solitária que leva e, ao longo da estória, não quer mais voltar para Paris.

"Foi meu pai quem me convenceu, tanto por exemplos como pela argumentação, que, embora passemos a maior parte do nosso tempo com outras pessoas, essencialmente vivemos nossas vidas sozinho." (O Tom Ausente de Azul, de Jannie Erdal)

Sanderson é uma personagem intragável e o leitor compreende facilmente o desconforto que Edgard sente ao lado dele. Presença maciça e densa ao longo do enredo, é aflitivo acompanhar a queda de um homem em seus próprios fracassos. Por outro lado, acredito que a personagem de Carrie pudesse ter sido mais explorada, pois sua personalidade volátil e suas emoções à flor da pele geravam momentos interessantes na leitura.

É fácil notar as notas biográficas de Jennie Erdal ao enredo. Assim como ela, Edgard é tradutor e o livro é permeado por diversas reflexões das complexidades e dificuldades desta profissão. Confesso que, ao terminar a leitura, procurei saber sobre o tradutor do livro para o português, Pierre Menard, pois senti que a atividade dos tradutores deveria ser mais valorizada.

Como estória de ficção, este livro é basicamente sobre os conflitos das pessoas com elas mesmas. É um livro de tom mais existencialista e melancólico. Como "aula" de filosofia, é uma excelente opção para desmistificar que Filosofia é sempre chato e difícil, pois Jennie Erdal consegue abordar diversos assuntos e filósofos de um jeito fluido, gostoso e simples.

É uma leitura que eu recomendo, principalmente pelo carisma de Edgard. 

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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1 comentários

  1. Pierre Menard é um conto de Borges.
    Não queria compor outro Quixote - o que é fácil -, mas o Quixote. Inútil acrescentar que nunca enfrentou uma transcrição mecânica do original; não se propunha a copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir algumas páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes. ‘Meu propósito é simplesmente assombroso’, escreveu-me em 30 de setembro de 1934, de Bayonne. ‘O termo final de uma demonstração teológica ou metafísica – o mundo externo, Deus, a causalidade, as formas universais – não é menos anterior e comum que meu divulgado romance. A única diferença é que os filósofos publicam em agradáveis volumes as etapas intermediárias do seu trabalho e eu resolvi perdê-las. De fato, não resta um único rascunho que ateste esse trabalho de anos. O método inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os mouros e contra o turco, esquecer a história da Europa entre os anos de 1602 e 1918, ser Miguel de Cervantes. Pierre Menard estudou esse procedimento (sei que conseguiu um manejo bastante fiel do espanhol do séc. XVII), mas o afastou por considerá-lo fácil. Na realidade, impossível! - dirá o leitor. De acordo, porém o projeto era de antemão impossível e, de todos os meios impossíveis para levá-lo a cabo, este era o menos interessante. Ser no séc. XX um romancista popular do séc. XVII pareceu-lhe uma diminuição. Ser, de alguma maneira, Cervantes e chegar ao Quixote pareceu-lhe menos árduo – por conseguinte menos interessante – que continuar sendo Pierre Menard e chegar ao Quixote mediante as experiências de Pierre Menard.







    Borges, Jorge Luis. Ficções. (Tradução Carlos Nejar). São Paulo: Ed. Globo, 2001. p. 58. / Cândido Portinari

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