O conto que originou o filme A Chegada (Arrival)

Desta vez, a discussão "O livro ou o filme?" será um pouco diferente. Depois que assisti o filme "A Chegada" , lanç...


Desta vez, a discussão "O livro ou o filme?" será um pouco diferente. Depois que assisti o filme "A Chegada", lançado em 2016, fiquei extremamente curiosa para ler o conto que deu origem à estória, chamado "História da Sua Vida", de Ted Chiang. Achei injusto comparar as duas obras, pois são formatos muito diferentes entre si e, por isso, falarei um pouco sobre ambas.

Ted Chiang nasceu em Nova York, depois de seus pais emigrarem da China durante a Revolução Comunista. Ele é formado em Ciências da Computação, mas sempre se arriscou a escrever contos que, inclusive, já lhe renderam importantes prêmios de ficção-científica. Com o lançamento do filme "A Chegada", uma coletânea de seus principais contos foi divulgada.

"História da Sua Vida" é um conto curto, com cerca de 33 páginas. Nele, Louise Banks é uma renomada lingüista que é convocada pelo Governo Americano para tentar comunicar-se com uma das centenas de naves alienígenas que estão pousadas pela Terra. As naves estão espalhadas pelos quatro cantos do mundo e, em cada país, há uma unidade militar tentando desvendar as reais intenções dos alienígenas. Louise será a parceira de Gary, um fisico experimental que irá tentar decifrar os alienígenas através de cálculos matemáticos. Estes alienígenas foram chamados de heptapódes, por possuírem sete tentáculos e serem semelhantes a um polvo. 

O conto se alterna entre os relatos de Louise sobre a forma de comunicação dos  heptapódes e suas descobertas e trechos dela contando sua vida com sua filha adolescente. Nestes trechos com sua filha, o leitor sabe que Louise não está mais em um relacionamento com Gary e, agora, namora um homem chamado Nelson. 

A sinopse do filme é exatamente a mesma estória do conto, e é possível ver que o diretor Dennis Villeneuve preocupou-se em manter uma extrema fidedignidade aos conceitos científicos e linguísticos do conto. A forma como Louise vai, aos poucos, descobrindo a forma como os heptapódes se comunicam é agradável e mesmo nós, leigos no assunto, conseguimos compreender como a forma de comunicação tem tudo a ver como a forma de enxergar o seu próprio lugar no mundo. Tanto o conto quanto o filme provocam uma reflexão profunda e muitíssimo interessante.

Um ponto a favor para o filme é a capacidade visual de demonstrar como é a língua dos heptapódes. No conto, por mais que imaginemos, é complicado entender exatamente o que Ted Chiang criou. 

Existem algumas modificações do conto em relação ao filme, o que é esperado. Por exemplo: no conto, os heptapódes possuem olhos em toda a estrutura que seria a cabeça, e eles podem olhar em todas as direções o tempo todo; no filme, os alienígenas não possuem estes olhos. Outra diferença é o nome dos heptapódes - no conto, eles se chamam Flapper e Raspberry e, no filme, Abbot e Costello. No filme, Gary foi rebatizado de Ian. Nada extremamente relevante foi alterado, então.

A única diferença realmente notável que senti foi a carga de drama em Louise Banks. No conto, Louise é uma personagem bem humorada, sarcástica e mais leve do que a Louise interpretada por Amy Adams. No filme, as cenas envolvendo a filha de Louise são mais trágicas e mais tristes do que as cenas do conto, e a própria personagem de Louise é mais fechada e mais melancólica. Particularmente, gostei desta mudança de tom que o diretor fez no filme, pois aumentou - e muito - minha conexão com Louise. Além disso, Amy Adams fez uma interpretação impecável.

E, claro, não posso deixar de comentar sobre o enorme empoderamento feminino que estas duas obras inspiram. Acredito que este filme não seria lançado há alguns anos atrás, afinal, temos uma mulher cientista como personagem principal, e vejo isso como uma evolução do movimento feminista. Gary/Ian é uma personagem coadjuvante, na minha opinião, completamente irrelevante para a estória, pois sua única função é ser o pai da filha de Louise e ele mal contribui para a pesquisa com os heptapódes. Mas, no passado, tivemos muitas personagens femininas assim, que eram apenas "ornamentos" no enredo, e fiquei extremamente feliz em conhecer Louise Banks.

Recomendo muito o filme e o livro. Ambos entraram na minha lista de favoritos e devem ser homenageados.

Avaliação do Perplexidade e Silêncio: 

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