Ser uma voz, não um eco

Ao longo dos últimos anos, tentei participar de algumas iniciativas que, a princípio, me pareciam interessantes. Encontrei pessoas que t...


Ao longo dos últimos anos, tentei participar de algumas iniciativas que, a princípio, me pareciam interessantes. Encontrei pessoas que tinham propostas revolucionárias e libertadoras para a nossa sociedade ou para a literatura nacional, e acreditei nelas (nas pessoas e nas propostas). Acho que fui tomada pela necessidade humana de fazer parte de um grupo. 

Algum tempo se passou e, hoje, não estou mais vinculada a nenhuma delas, e o que poderia ser motivo de tristeza ou de frustração, na realidade, tornou-se razão para eu me sentir mais livre. É o mesmo tipo de alívio que sinto quando fico longe de artigos da internet, quando saio de um grupo de mensagens no celular ou quando decido não me envolver em polêmicas e debates da moda. Quase sinto a despressurização física da minha mente, mais leve e menos poluída pela verborragia vazia do momento.

O que concluí destas minhas experiências, com as mencionadas pessoas e propostas, é que é mais fácil ser um eco do que uma voz, atualmente. Grande parte dos conteúdos que leio por aí - e dos conteúdos que eu me sentia obrigada a comentar, nas ocasiões que mencionei - não são originais e passam longe da autenticidade. São, de fato, cópias e reproduções de textos lá de fora ou artigos sem aprofundamento, análise ou opiniões próprias. São repetições cansativas e superficiais, e assim estamos nos esvaziando de significado.

E, se as experiências não possuem reais significados, toda a capacidade de pensamento e simbolismo do ser humano morre. Como resultado, fui murchando: meio morta por dentro, por me sentir obrigada a fazer parte dos ecos, e não das vozes. Extrapolando ainda mais minha reflexão, percebi que não preciso ser influente (do jeito que é mensurado hoje em dia, por seguidores e likes e por aí vai) para ter minha própria voz e me fazer ser ouvida. Afinal, uma hora percebi que a minha pessoa e as minhas propostas estavam sendo mais reais e verdadeiras do que aquelas que apareceram no meu caminho.

Limpei não apenas minha timeline, minhas relações e meu tempo, como também limpei minha cabeça. Os ecos estavam me incomodando, repetindo as mesmas frases e falando sobre as mesmas coisas, e ocupavam espaço demais dentro de mim. E não sobrava nem um cantinho para a minha voz aparecer. Cansei de notificações e de papo besta, fantasiado de revolução e de análise crítica. 

Agora consigo ouvir claramente o que eu tenho a dizer, e também posso decidir se quero ou não compartilhar. E o melhor de tudo é que, assim, entra mais luz e mais silêncio no meu dia-a-dia, para o que realmente importa.

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2 comentários

  1. Ah cara, que post legal <3 você sabe como eu me sinto e sabe que eu concordo com você. Faz um bem danado passar por essas limpas, esses quase-exorcismos de vez em quando, principalmente porque muitas vezes a gente se enfia numa bola de neve sem perceber e, quando se dá conta, está absolutamente cercada de gente igual - ou, pior ainda! Tentando ser igual à elas.
    Libertar-se é preciso <3

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