O meu passageiro gosto por matemática

Na época da escola, embora poucas pessoas acreditem, eu era boa em Matemática. Todos esperavam de mim, escritora recém-nascida e melhor a...

Na época da escola, embora poucas pessoas acreditem, eu era boa em Matemática. Todos esperavam de mim, escritora recém-nascida e melhor aluna de Literatura (e de Filosofia), que eu ficasse assustada com os números e tropeçasse neles bem ali, entre as frações e equações. Até eu esperava por isso, na verdade: aprendemos desde cedo que palavras e números tem densidades diferentes e não se misturam.
Mas, acredite, eu era boa em Matemática e, por algum tempo, seu campo de subtrações e divisões foi meu refúgio . Hoje, quando preciso dele - do refúgio - tenho minhas fantasias e cenários imaginários, mas, naquela época, tudo ainda estava no rascunho. Fui uma criança quieta e fechada por fora, confusa e movimentada por dentro. Quer dizer, sou assim até hoje, eu sei. O ponto é: quando eu era mais nova, a Matemática me colocava nos eixos.
Nela, o que mais me fascinava era a exatidão: havia somente uma resposta certa, e todo o resto estaria errado. Eu sabia o que precisava atingir, que número me esperava e onde eu ia chegar. Caso eu saísse do caminho, saberia. E retornaria ao ponto de partida.
A Matemática é limpa e perfeita. Branca e preta. Reta, lisa e constante. Universal. Sem idiomas, pormenores e sotaques. Ela é e pronto. E toda esta exatidão e coerência era (é) exatamente o que eu não tinha, cheia de emoções e pensamentos como sou. Por isso, aquela solidez da Matemática me conquistou, pois me libertava.
Com as palavras, você nunca sabe o que vai acontecer. Palavras são imprevisíveis e, nos momentos cruciais, elas fogem, nos deixando analfabetos. São incertas e imprecisas como a própria vida. Se me perguntam algo sobre o mundo, sobre mim, sobre a existência - o que for - haverá tantas respostas possíveis que ficarei aflita e, provavelmente, me perderei.
Na Matemática, as coisas são concisas, práticas e eficazes. Como eu deveria ser. Com isso,eu fazia as lições desta matéria com gosto e com alívio e, quando alguém estranhava esse meu "mórbido prazer", eu nunca soube responder porque ele existia.
Com o tempo, meu jeito com números se perdeu. Acho que foi quando organizei a bagunça aqui dentro, pelo menos superficialmente, e as palavras passaram a dominar o repertório. 
Lembro que, depois de um tempo, comecei a questionar a Matemática. Queria saber quem inventou os números, quem decidiu os valores, como descobriram a raíz quadrada, como surgiram as operações e porque o quatro representava um quatro e não qualquer outra coisa. Queria saber as origens e os por quês - não é à toa que me tornei psicóloga.
Em suma, filosofei os números e transformei a Matemática em crônica. Foi aí que nos separamos. Mas, de vez em quando, sinto saudades da pureza de sua exatidão.

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1 comentários

  1. Eu ainda sou louca pela exatidão dos números... E com esse seu texto agora sei o porquê. As letras são imprevisíveis. E acho que números e letras podem sim andar juntas! Amo os dois... ♥
    Beijos
    Adriana

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