Escritores que Inspiram | Anais Nïn

Falar, hoje em dia, de literatura erótica faz a grande maioria das pessoas pensar em "50 Tons de Cinza" e outros livros simil...


Falar, hoje em dia, de literatura erótica faz a grande maioria das pessoas pensar em "50 Tons de Cinza" e outros livros similares. Porém, muito antes deste movimento, algumas mulheres resolveram ser corajosas e escrever sobre sexualidade em épocas onde existiam mais tabus e preconceitos sobre o tema. Estas escritoras, vanguardistas do gênero, levantavam a bandeira da igualdade entre homens e mulheres para descobrirem seus próprios corpos, sentimentos e vontades.
Anais Nïn foi uma destas escritoras. De origem francesa, cubana e espanhola, nasceu no começo do século passado e faleceu nos anos 70. Ou seja, Nïn presenciou e evolução da sexualidade ao longo das décadas, e chegou a participar ativamente de movimentos e passeatas a favor da liberação da mulher.

Nïn começou a escrever através de um diário, onde registrava as impressões que recolhia nas diversas viagens que fazia pelo mundo com seus pais. Divorciados, sua mãe morava nos Estados Unidos e, seu pai, na Europa, e Nïn se revezava entre as duas casas. Ambos eram artistas e ela logo começou a conviver com uma série de pintores, escritores, filósofos e cineastas da época.
Nïn também cresceu em meio ao florescimento da Psicanálise e das teorias de Freud sobre a libertação dos impulsos e da libido nas mulheres. 
Mais tarde, já casada, Nïn se envolveu com o escritor Henry Miller. 
Todas estas experiências e relacionamentos influenciaram sua forma de escrever. Seus livros combinam erotismo, angústias de uma mulher tentando encontrar seu lugar no mundo e reflexões sobre a sociedade da sua época.

O primeiro livro que li dela foi "Pequenos Pássaros". Escrito em 1940, o livro foi censurado e só pôde ser publicado depois que Nïn faleceu, quase nos anos 80. No livro, há treze contos que falam sobre diversas mulheres que encaram e lidam com diferentes formas de paixão. Apesar da temática predominantemente erótica, Nïn é delicada e sútil ao escrever os contos, embora, ainda assim, seja franca e honesta sobre o assunto.
A forma como ela descreve certas cenas não deixa o leitor constrangido. Ao contrário: Nïn se preocupa em desenvolver os porquês de suas protagonistas buscarem aquelas determinadas experiências, trazendo uma dimensão mais profunda às personagens. Existe pouco foco no homem ou no amor, e sim, na libertação e na conquista das mulheres.
Nada de Christian Grey aqui, graças a Deus.

Seu livro mais famoso é "Delta de Vênus". Assim como o livro que mencionei acima, foi censurado nos anos 40 e publicado postumamente. São quinze contos que foram escritos sob encomenda para um homem que nunca foi identificado, apenas conhecido como "Colecionador". Diz-se que o tal Colecionador não ficou satisfeito com o trabalho final de Nïn, pois ele esperava uma narrativa puramente explícita nos contos, enquanto Nïn entregou estórias com sua prosa poética e reflexiva que lhes são características.
Com isso, Nïn re-escreveu seus contos. Ainda encontram-se os originais por aí, mas eles são cada vez mais raros. As publicações que saíram nos últimos anos são os manuscritos reeditados para satisfazer seu patrocinador.
"Delta de Vênus", com isso, é mais pesado e mais explícito que "Pequenos Pássaros". Pessoalmente, prefiro a sutileza de Pássaros, pois ali dava para ver mais a essência revolucionária da escritora.

Em tempos onde virou moda falar sobre sexo e erotismo, quis resgatar as origens de um movimento que, para mim, parece perdido entre adaptações de cinema e mulheres submissas. A leitura erótica é válida sim, se fala de libertação, igualdade de gêneros e força da mulher. Que resgatemos esta veia revolucionária, por favor. Estou sentindo falta disso na Literatura.

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