O livro ou o filme? | Lolita, de Vladimir Nabokov

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Li "Lolita", de Vladimir Nabokov, recentemente, e fiz um resumo desta leitura no Já Li #3. O livro é narrado em primeira pessoa por Humbert, que deve ter aproximadamente 45 anos, que fala da sua primeira paixão por uma garota de 12 anos, chamada Anabelle, e com a presença de Lolita, também com 12 anos, fez ele lembrar-se desta paixão e querer vivê-la novamente. Ele se casa com a mãe de Lolita apenas para poder ficar perto dela. Ao longo da estória, as coisas acabam se complicando e o relacionamento dele com Lolita vai se modificando.
Existem dois filmes que adaptaram o livro ao cinema: um de 1962 de Stanley Kubrick e um de 1997 de Adrien Lyne. Meu objetivo não é comparar os dois filmes, e sim, compará-los com o livro.
Na primeira adaptação ao cinema, de Kubrick, o próprio Vladimir Nabokov escreveu o roteiro e o diretor, deliberadamente, fugiu do escopo que seu roteiro propunha. Com isso, a Lolita deste filme é mais liberada sexualmente, em oposição à Lolita do livro, que é mais ingênua e mais doce. Porém, naquela época, a censura era mais forte em relação a conteúdos sexuais no cinema e, por vezes, as cenas mais quentes não puderam ser rodadas, o que fez o relacionamento de Humbert e Lolita ficar muito ambíguo, na tela.
O Humbert desta adaptação, visto isoladamente, é mais fiel ao livro, pois ressalta os traços mais insanos dele. (Kubrick, né?)
Já a adaptação de 1997, de Adrien Lyne, é mais fiel ao livro como um todo, embora, ainda assim, novamente coloque Lolita como alguém que corresponde aos sentimentos de Humbert. Em ambos os filmes, perde-se uma parte fundamental do enredo que é a manipulação de Humbert dos fatos e da audiência, tentando colocar todos ao seu redor a favor do relacionamento deles. Porém, nesta adaptação, Humbert é mais amargo e mais sério, mas não deixa salientar o caráter controlador que ele tinha na vida de Lolita.
Além disso, eles optaram pela atriz Dominique Swain, então com 17 anos, para o papel de Lolita. Com corpo e jeito de adolescente, sua Lolita fica mais distante da criança do livro, chocando menos com o assunto da pedofilia na tela.

O livro ou o(s) filme(s)? O livro.

O relacionamento entre Humbert e Lolita é o foco dos filmes, porém, no livro, o ponto central do enredo é o ponto-de-vista de Humbert sobre as mulheres mais velhas e sobre sua atração pelas ninfetas. Humbert se justifica o tempo todo em relação a esta atração, pois ele tem consciência de que a sociedade o julga e o condena como pedófilo. Desta forma, ele resgata na História da Humanidade todos os episódios onde este tipo de atração era aceitável e natural. Além disso, Humbert era um misógino de carteirinha, e a forma como ele vê e fala das mulheres mais velhas causa tanta indignação no leitor quanto a própria pedofilia.
(Se você não sabe o que é misoginia, sugiro ler este meu artigo para a Obvious Magazine).

Além disso, nos filmes, os diretores assumiram que Lolita era recíproca aos sentimentos de Humbert. No livro, no entanto, não fica claro se a garota correspondia ou sequer se compreendia a sexualidade que envolvia o relacionamento deles. O que fica claro no livro, e não nos filmes, é o caráter perturbado e manipulador de Humbert no primeiro plano. O erotismo fica em segundo plano.



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