O Conto da Flor Azul, parte 2

Sinopse: Há certos pensamentos que fazem nosso cérebro estalar. Tente imaginar um lugar sem a marcação do tempo, suspenso entre o qu...



Sinopse:
Há certos pensamentos que fazem nosso cérebro estalar. Tente imaginar um lugar sem a marcação do tempo, suspenso entre o que você pensa ser a realidade e o que você acredita ser um sonho. Tente, ainda, imaginar que neste mesmo lugar, não há som: você caminha no silêncio absoluto das coisas, como o som do universo em seu vácuo infinito e grandioso. Você consegue sentir a grama sob seus pés e caminha, caminha, caminha - sem direção nem motivos.
Depois de imaginar este cenário, adicione uma flor. Uma flor pequena, azul e misteriosa, que será a chave para todas as perguntas que você faz enquanto caminha. Mas isto não significa que você entenderá as respostas.
O Conto da Flor Azul fala sobre os limites da realidade e da fantasia, uma imersão em uma atmosfera onírica que pode ser verdade, como pode ser uma criação. E também fala da nossa libertação pessoal quando nos vemos sem os limites das referências de espaço e de tempo.

Leia a parte 1 aqui.
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      O barulho da rua, aos poucos, foi ficando cada vez mais alto e incômodo. A cidade acordava aos poucos, agitando suas engrenagens e colocando a vida em movimento. O despertador ao lado da cama, com tic-tac arrogante de quem manda em você, marcava 7:20h da manhã. Ela poderia dormir mais dez minutos – se o barulho lá de fora não tivesse interceptado seu sono. Deitou-se virada para cima, olhando o teto.
      Seus pés doíam e as juntas dos seus joelhos também. Vagarosamente, o cérebro dela começou a tentar lembrar-se do que fizera no dia anterior que justificasse tamanho desconforto. Depois de algum tempo se esforçando, ela notou que não se lembrava de nada. Creditou sua amnésia repentina ao sono – ou melhor, à ausência dele. Agora eram 7:25h e ela deu um enorme e cansado suspiro. O tempo ditava toda sua rotina, como um general sem compaixão e sem possibilidade de diálogo. E ela começou a imaginar como seria um mundo sem o tempo.
     Você deve estar pensando que, se ela soubesse sobre os S maiúsculos, não sentiria tanta vontade assim de conhecer um mundo sem tempo, e concordo com você.
      Agora era 7:28h. Passara três minutos de olhos fechados, desejando que o mundo parasse e ela pudesse se recompor. 7:29h. E, enfim, o barulho agonizante do despertador tocando. Ela lançou suas pernas por sobre a cama e tratou de levantar logo, já que não podia mais adiar seu contato com o exterior. Ao, fazer isso, apoiou-se na cama e só então percebeu que, caída entre seus dedos, ainda fresca e perfumada, havia uma flor azul.
      Você deve pensar que a reação dela foi de ficar surpresa: engana-se. Ela ficou encantada. Passara toda sua vida desejando que algo extraordinário acontecesse em sua rotina sem graça, acreditando que merecia vivenciar algo de mágico e fantasioso, sentindo lá no fundo que fora feita para acontecimentos solenes e modificadores da existência. E aquela flor azul era o que havia esperado todos aqueles anos.
      Olhou-a bem de perto, analisando suas pétalas grandes e arredondadas e seu miolo amarelo-vivo. O azul da flor era desconcertante, um azul tão puro e tão real, completamente diferente de tudo o que tinha visto. A flor toda, apesar de pequena, reluzia como se fosse parte do início da criação do mundo. Ela sentiu, no meio do peito, que segurava algo primordial e desencadeador de tudo, achou-se um pouco louca, e decidiu não contar sobre a flor a ninguém.
      Guardou-a dentro do livro que havia na cabeceira da cama. Algo lhe dizia que aquela flor não murcharia, nem morreria: que estava acima de todas as coisas, e que havia viajado por muitas eras até parar em sua mão. Não me pergunte como ela sabia de tudo isso, deduzo que seja intuição.
      No curto tempo que transcorreu entre ela guardar a flor e levantar-se para trocar de roupa (7:37h agora), sentiu um cheiro de grama. De grama? Não, de jardim, reconsiderou ela. Olhou para a cabeceira da cama e lá estava seu livro, sendo soterrado entre diversas plantinhas que cresciam de dentro dele, como pequenos ramos de ervas e frutinhas silvestres. O volume das plantas aumentava a cada piscar de olhos e, logo, esparramavam-se por sobre a cabeceira da cama, caindo no chão, derrubando o despertador e um porta-retrato. A vida era gerada com força total.
      Não demorou muito a aparecerem abelhas, borboletinhas minúsculas que pareciam alucinações, meia dúzia de passarinhos e joaninhas. Andavam pelo quarto todo como se ali morassem desde sempre e fosse seu habitat natural. O jardim continuava a crescer e ganhar cada vez mais espaço em seu quarto, e agora mal se via a penteadeira dela. A cama já começava a ser subjugada pela profusão de plantas e pequenos animais.
      Os pés dela, então, tocaram um pequeno trecho de grama, que aparecia como se fosse um tapete por debaixo da cama. Era rasteira e tinha um tom de verde de coisa nova, recém-nascida. A flor, no meio do redemoinho de acontecimentos botânicos, vamos dizer assim, escorregou e caiu na grama. Ela estendeu a mão para alcançá-la e a pontinha do seu pé direito notou que a grama era macia e úmida. Ao tocar a flor, sentiu um puxão forte e arrebatador, daqueles que acontecem sem pedir permissão e te levam embora.
      A grama era macia e estava úmida. Aliás, era macia somente nos primeiros passos, ela logo notou, pois a grama começou a espetar a sola dos seus pés depois de um certo tempo. Era difícil saber quanto dele – do tempo – havia passado: estava tão distante do mundo que ela sentia que ali não havia tempo algum.

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