Aquele dia que resgata a poesia

Tomava um suco e lia uma revista, silenciosa no meu canto, pois estava tentando resgatar meu espírito do fundo do poço dos últimos dia...


Tomava um suco e lia uma revista, silenciosa no meu canto, pois estava tentando resgatar meu espírito do fundo do poço dos últimos dias, desgastantes e cheios de tumulto. Curtia aquela paz e respirava fundo - pausadamente - querendo acalmar meu coração e minha mente, expulsando de mim as vozes, os problemas e as dificuldades (oh, são tantas!)

Na minha frente, sentou-se uma mulher com seu cachorro. Ele era muito pequeno, ainda filhote e com aquele brilho de nossa-que-mundo-grande estampado nos olhinhos. As patinhas pretas eram longas e finas, seu corpo era magro e seu pêlo era de um preto lindo, profundo e brilhante. Enquanto o observava, vi que ele engoliu uma pedra - alertei a dona que, muito agradecida, teve tempo de impedir que ele a comesse. Voltei satisfeita para o meu canto, com olhares esporádicos de satisfação da dona e do próprio cachorrinho, que pareceu compreender que eu o havia ajudado.

A pequena poesia que exalava da curiosidade do filhote e da gratidão de sua dona arrumou alguns espaços do meu espírito quebrado, e senti alguns pedaços meus voltando para seus devidos lugares. Sorri.

Tomava um suco e lia uma revista, de novo silenciosa, quando surgiu um garoto. O garoto imediatamente parou para brincar com o cachorrinho. Este, por sua vez, se engrandeceu em seus poucos centímetros, já que finalmente alguma criança como ele tinha aparecido para brincar. Ele devia estar cansado dos adultos (o cachorro ou o garoto?). O garoto negro tinha um tom de pele sedoso e macio, com seus cachinhos bagunçados indo para lá e para cá, num movimento bonito de se ver. Pediu permissão para a mãe antes de brincar com o cachorro. Mas algo me diz que ele iria mesmo sem isto.

A pequena poesia das duas crianças, humana e canina, divertindo-se com a alegria que existe em se estar vivo, limpou minha mente e meu coração de qualquer resquício de estresse ou caos que havia restado. Aquela espontaneidade de ser livre, ah!, aquilo me fez pensar, e senti vontade de ir lá, brincar com ambos. Não fui - dali de onde eu assistia, era a cena mais adorável que poderia haver.

O cachorrinho e sua dona foram embora. O garoto voltou para a mãe, já com saudades do novo amigo. Passados alguns poucos minutos, surge outro filhote de cachorro, um golden retriever com toda sua fofura característica. 

- Mãe, posso brincar com este também?
Todos que estavam lá riram, incluindo eu.

E na pequena poesia desta risada coletiva, voltei a ser eu mesma. Tomei um suco, terminei de ler a revista e fui embora mais leve, não sem antes fazer um pequeno cafuné da cabeça deste último filhote.

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1 comentários

  1. Muito bonito texto. Do tipo que recupera em nós a poesia cotidiana em nosso olhar desatento. Também amo estes dias onde nosso espírito se apazígua dando-nos a possibilidade de ler poesia na pintura móvel da vida.

    Adorei seu blog, estarei aqui por mais vezes.

    Atenciosamente, Leonard N. Oliveira.

    Convido também você Ruh Dias e seus leitores a visitarem o meu blog 'Um lugar para estar'.

    http://umlugarparaestar.blogspot.com.br/

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