O brilho daquela estrela é meu

O brilho de uma estrela demora, mais ou menos, quatro anos para chegar aqui. E, se estamos vendo este brilho, também significa que es...


O brilho de uma estrela demora, mais ou menos, quatro anos para chegar aqui. E, se estamos vendo este brilho, também significa que estamos presenciando (atrasadamente) a morte daquela estrela - nada dura para sempre, nem mesmo elas. As estrelas nascem, evoluem e morrem, assim como nós. Como qualquer um de nós.

Também gostaria de, ao morrer, emitir um brilho que viajasse por imensidões do universo, chegasse em outros planetas, andasse por constelações e então fosse recebido com curiosidade e interesse por alguém (ou algo). Aliás: eu gostaria de emitir esse brilho agora mesmo, viva, humana e de carne e osso, eternizando no mundo um símbolo que fizesse sentido, que fosse significativo e simbolizasse algo maior do que eu mesma. Porque eu sou pequena demais, minúscula e inexpressiva - principalmente se penso nas estrelas lá fora.

E se a estrela que vejo agora morreu há quatro anos, ela nem suspeitaria do que eu estaria vivendo quando seu brilho chegasse aqui. Naquele momento, de sua morte, eu era outra pessoa, vivendo uma outra vida, lutando contra fantasmas e monstros muito mais assustadores. Era mais fraca e mais encolhida e meu mundo era de um cinza chumbo. 

Durante o tempo em que o brilho da estrela demorou para atravessar a galáxia, meu mundo foi girando, girando, girando: e hoje estou aqui. É como se a estrela soubesse a hora certa de morrer para iluminar minha vida no momento exato - nem antes nem depois.

Sei que sorrio para algo que morreu, para o vazio imenso de um universo escuro e (infelizmente) inalcançável. Minha alma de criança queria ser astronauta para tocar as estrelas. Acreditava, ingenuamente, que elas eram feitas de vidro. Depois, aprendi nas aulas de Física que as estrelas quentes são azuis e as frias são vermelhas (o contrário do que sempre imaginei), mas quero tocá-las: até hoje quero, anos depois de não ser mais uma criança. No fundo, ainda duvido de que tenham me ensinado certo na escola - queria ver com meus próprios olhos e tocar com meus dedos tortos.

Mas o que posso ter hoje do universo é o brilho de uma estrela. Desejo acreditar que aquela ali, em específico, morreu por mim, para mim, para me trazer no dia de hoje - quatro anos depois, programadamente ,como um calendário - um sorriso dentro do meu coração.

E então me senti feliz, mesmo sem tocá-la.


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