4/6 - Ruby

*Trilha sonora do post: Ruby - Kaiser Chiefs* Os outros posts da série: 1/6 Virgínia 2/6 Mary Elizabeth 3/6 Veridiana Que...



*Trilha sonora do post: Ruby - Kaiser Chiefs*

Os outros posts da série:
1/6 Virgínia
2/6 Mary Elizabeth
3/6 Veridiana

Quem me tirou da cama aquele dia foi o sol. Entre um cochilo e outro dentro da imensidão condensada no meu quarto, uma fresta de sol apareceu entre as persianas, e aquilo serviu-me como um convite. Foi como se tivesse acendido um alerta dentro de mim que eu era vasta demais para estar escondida dentro de mim mesma, e que eu deveria dar um pouco de mim ao mundo. Foi o que fiz.

Na praça de todo dia, perdida no cenário familiar da rotina, sentei no banco que havia perto do parquinho das crianças. Escolhi aquele lugar porque ficava bem no centro, afastado da rua, do barulho, do caos, dos carros. Se eu me concentrasse um pouco, quase esqueceria que estava tão perto de casa porque, no fundo de mim, eu estava bem distante dali. Estava perdida entre minha bolsa, meu livro, meus óculos, minha câmera e meus pensamentos.

Meus pensamentos tem o hábito de se engancharem uns nos outros, numa relação de co-dependência intrigante. Posso chegar a conclusões absurdas, fantasias lindas, sonhos inesquecíveis e nem sequer perceber como eles se formaram. É como se os meus pensamentos saíssem de dentro do meu coração, sem filtro. E eu gosto disso. Não sou do tipo que fltra o que devo ser, não tenho paciência para lapidações ou delicadezas. Se o que sai, vem de forma bruta, pois então que seja bonito desse jeito, mesmo que mal feito.
Vê? Aqui estão os pensamentos se enganchando. Aqui estou eu perdida em mim.

Enquanto isso, o mundo continua acontecendo do lado de fora: a mulher que passeia com seu cachorro, o casal de namorados que conversa num banco à esquerda, as frutinhas que caíram de uma árvore próxima e ainda estão frescas no chão, o formato das folhas das diferentes flores, o formato das flores das diferentes plantas, as diferentes pessoas em seus formatos. Mas assisto a tudo isso como se não fizesse parte, de fato, daquela cena: eu nunca estou genuinamente conectada a nada.

O curioso é que, quando estou feliz, me conecto menos ainda. E naquele momento, eu estou feliz. Imersa na minha alegria mansa, participo de um filme onde não sou a personagem principal. As coisas ao meu redor acontecem em um ritmo próprio e doce, sob uma luz líquida e pura, com cristais de poeira balançando no reflexo do sol e nuvens carnudas passando devagar pelo céu. Minha felicidade faz a vida parecer um videoclipe: mas eu não canto nele. Nem danço. Eu nem sequer apareço - quando estou feliz, eu sou a trilha sonora.Uma música que toca imperceptivelmente no fundo, entoando o mundo a continuar existindo em sua infindável beleza. Porque, nestes momentos, sim, eu acredito nisso: meu coração está cheio de Sol, e tudo que eu quero é ser a música que embala a vida.

Quando me dou conta, há uma pequena criança à minha frente, me encarando com aqueles olhões curiosos que eu desejo todos os dias não ter perdido. E meu primeiro pensamento é desejar a ela que seja forte, pois o mundo tentará violar aquela essência - ainda pequenininha, que cabe na palma da mão. Expresso este meu pensamento com um carinho discreto em seu cabelo fofinho - quando estou feliz, interajo um pouco mais que o normal, mas veja bem, ainda assim não sou boa nisso. Ela continua a me olhar, como se estivesse tentando descobrir o meu segredo.

E talvez, se ela olhar bem, descubra mesmo.

Pego minha câmera e tiro uma foto sua. A criança olha intrigada, mas logo se desvia novamente e me encara. E me encara mais um pouco. Por segundos que parecem longos como dias. Aproveito e tiro mais uma foto. A mãe, assumindo que a criança estava me incomodando - o que não era de todo uma conclusão equivocada, meu mundo me chamava de volta - a pega pela mão e vai embora. A criança logo se esquece de mim, distraída por um passarinho que bebia água no chafariz. O que me resta é tirar uma foto do passarinho também, ali devia haver algum mistério que a criança vira, mas eu não. 

Talvez eu descubra depois. Talvez não.

Eu estava tão feliz em mim mesma que, honestamente, nada disso realmente faria diferença.

Posts Relacionados

Comente com o Facebook

1 comentários

  1. "sou a trilha sonora..." q lindo

    Fofo o texto. Palpável.

    ResponderExcluir