Água

Eu sou do tipo que acorda melancólica sem razão nenhuma, ou talvez por todas as razões do mundo. E também sou do tipo que se assusta qu...


Eu sou do tipo que acorda melancólica sem razão nenhuma, ou talvez por todas as razões do mundo. E também sou do tipo que se assusta quando a felicidade vem, porque me soa tão estranha a completude. Se alguém me perguntar os porquês de eu me sentir assim, tão profundamente triste de uma hora para outra, eu posso até explicar - mas não tenho certeza que os motivos serão entendidos.

A verdade é que não existe uma razão. Existe uma emoção. 

Existe um certo tipo de solidão que deixa marcas. Não me refiro àquela solidão pontual, de alguns dias ou de alguns momentos, tampouco aquela sensação clichê se sentir-se sozinho na multidão. Eu lido bem com isso. Eu falo de uma solidão tão imensa e tão profunda que comeu um pedaço de mim. Talvez um pedaço fundamental, inclusive, que está perdido para sempre. Já houve um tempo onde procurei por aí essa peça do quebra-cabeça, e fiz questão de me iludir e de me convencer que havia encontrado.

Mas então o tempo passou, e eu senti como nunca que a solidão ainda morava em mim. E a angústia que vinha invadia cada espacinho meu, e corroía, corroía, corroía. Lentamente, mas de uma vez só. Eu sei, não é uma tragédia dessas de novela, e pareça só melindre de alguém que não tem lá muito jeito para viver. 

Até aqui, sem grandes novidades. Tudo isso já me é sabido há tempos.

A descoberta recente é: "a dor vira água." 
E como a água, a dor escorre. Vai embora. Evapora. 
Escapa pelo meio dos dedos sem cerimônia.

Às vezes inunda. Também pode afogar, mas é uma questão de manejo: de conter a enchente, de dividir em copinhos e espalhar pela casa, e beber só um pouquinho dessa água, quando convier. Porque eu gosto da minha dor: ela me faz criar coisas lindas (lindas assim, como esse "nós" que construímos juntos).
Me acalma saber que, da água, a dor caminha para a memória. E fica ali guardadinha só para lembrar que há uma história a ser contada, e que faz parte de um passado meio desbotado e envelhecido. Já não é mais um monstro que pode me assombrar.
É só água.

Transparente, inofensiva e que pode nutrir e alimentar, inclusive. Que é indispensável para se viver: porque a dor é mesmo indispensável. Mas não precisa ser insubstituível. Muito menos, eterna.

Eu posso nadar. Eu posso flutuar na superfície. Eu posso, inclusive, me banhar nessa água. Mas eu não preciso me afogar nela: eu não preciso ter medo. Eu sei nadar.

Eu sei nadar.

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1 comentários

  1. Quando precisar de uma boia, eu estarei aqui.
    Lindo texto <3

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