A inesperada festa dos balões

O jardim do meu castelo é amplo e quase sempre florido. Se o mundo está cinza, as flores nascem coloridamente se destacando no meio do ...


O jardim do meu castelo é amplo e quase sempre florido. Se o mundo está cinza, as flores nascem coloridamente se destacando no meio do céu nublado, querendo desesperadamente me fazer sorrir; se o mundo está em época de sol, lá estão as pequenas florzinhas brancas que formam minha coroa. No dia em que não há nenhuma flor, então é o recado que há graves problemas no meu acanhado Reino.

E teve um dia que decidi sair no jardim e ver como estavam as coisas lá fora. Estou tão acostumada a me encerrar dentro das paredes do meu castelo que vira-e-mexe esqueço de viver. Esqueço também de exercer meu lado régio e dourado - tenho mesma essa mania de achar que ainda sou pequena e menina (bom, talvez eu seja mesmo). Mas teve este dia: soltei os cabelos e me arrisquei a abrir as portas.

Lá no jardim, soltavam balões. Todos do meu Reino estavam lá: os queridos, os íntimos, cada um levando no pescoço seu cordão com meu teco de coração pendurado. Eram pouquíssimas pessoas, pois assim é meu castelo: acesso tão restrito, lugar bastante silencioso, quase despovoado. Mas, aqueles que fazem parte dele e brincam no jardim, são mais preciosos do que qualquer tesouro de Rainha que eu pudesse ter. Ganham esse pingente com meu pedacinho nele - é quase como um prêmio. Ou um agradecimento, não sei bem.

Eles colocavam papeizinhos nos balões. "São meus desejos", diziam alguns. "São minhas orações.", diziam outros. "São meus pedidos.", também ouvi. Eu não sabia muito bem o que fazer no meio daquele ritual coletivo. Eu escutava a música, admirava as flores, arriscava dançar, sentia o Sol no meu cabelo, mas não sabia o que fazer com o meu balão. Nem com os pedaços de papel que colocaram na minha mão. Senti a grama nos meus pés descalços, escutei os risos, ri também - mas, no fundo, estava perdida.

Durante certo tempo, fiquei observando cada uma das pessoas que moram no meu castelo. Desejei tanto a felicidade delas - tão mais que a minha própria - que chegou a doer. Sonhei que os balões alcançavam um céu roxo e bonito, sonhei que as estrelas leram cada um de seus papéis e encaminharam os desejos para que fossem realizados. Isso me fez sorrir de olhos fechados, a luz vermelha do Sol queimando as minhas pálpebras.

Então, senti uma mão no meu ombro. No meio daquela festividade (tão repentina ela, nunca entendi como começou), pensei que fosse alguém querendo que eu dançasse. Era você trazendo minha coroa de flores brancas, sempre gentilmente colocando-a na minha cabeça para que eu me lembrasse que eu sou um pouco maior do que uma simples menina. Eu me esqueço disso com frequência, eu sei. Você pegou na minha mão e me levou para perto do meu balão - o único que, ainda, estava vazio; o único que, ainda, não tinha subido lambendo o céu azul bonito. E me entregou um punhado de papéis.

Eu não quis escrever os meus desejos, nem os meus sonhos, nem fazer pedidos. Antes disso, eu precisava limpar meu coração: cada papelzinho meu recebeu um medo, um trauma, uma memória triste. E doeu. Cada letra que escrevi, doeu. E sim, chorei - em meio à festa, ao dia de sol, às flores brancas e no seu ombro. Não era dia de tristeza, mas a tristeza precisava sair de mim. Mesmo que saísse com dor. Você me apertava a mão e aquilo me dava forças para ser triste sem desmoronar. 

E quando não pude mais escrever, você fez o resto por mim: você colocou os papéis no meu balão e desatou o nó que o prendia ao chão. Eu observei o balão subindo, devagar, rasgando nuvens, envergando na direção do vento e ficando cada vez mais distante de mim. 

Você nada disse, enquanto olhava os balões ao meu lado. E, no nosso silêncio, nos comunicamos: o meu jardim seria mais bonito dali em diante. E, o meu castelo, não mais solitário. Porque os meus medos estavam longe... cada vez mais longe.

E naquele silêncio, curamos tantas feridas. 
Você ajeitou a minha coroa, enxugou minha última lágrima, e então sentamos na grama.

"Finally I could hope for a better day / No longer holding on to all the things that cloud my mind."

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1 comentários

  1. Q lindo! <3
    Adoro essa analogia.
    Adoro esses textos repletos de esperança

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