1/6 - Virgínia

*Trilha sonora da Virgínia: Philip Glass - The Hours* Aquele dia estava anormalmente quieto e parado. Não havia crianças brincando...


*Trilha sonora da Virgínia: Philip Glass - The Hours*


Aquele dia estava anormalmente quieto e parado. Não havia crianças brincando no parque, nem casais, nem cachorros. Ela estava só em companhia do concreto, das árvores e das folhas - também não havia flores nem sol. Era como se o mundo, naquele dia, tivesse esquecido de acordar, e havia ela - e somente ela - andando pelas ruas. Nem sua alma havia acordado: havia ela - e somente ela.

Ela olhava as suas mãos estendidas sobre seu colo, que desanimadamente seguravam as chaves de casa. Não havia esperança, dentro dela, de que ela fosse deixar o peso que havia no coração atrás de si quando fechasse a porta - ela já se conhecia bem o suficiente para saber que aquele peso a acompanharia, sim, por toda a parte. Para sempre. Era sua sina carregá-lo e sobreviver a ele todos os dias.

Era o peso da vida. De todas as coisas que dão errado. De todas as tragédias, vividas e não vividas. De todos os defeitos. De todos os pecados.

Era o peso de saber que não existem fantasias. De saber que a realidade é fria como gelo. De entender que a felicidade sempre termina.

Imagine pequenas bolinhas de chumbo, acumulando-se num coração, ao longo de anos e de experiências doloridas - é assim que se fica: sentada no banco de uma praça vazia, lutando para não afogar-se.

Ela olhava atenta a cada (não) acontecimento que vinha de fora, e por dentro, sentia que se avolumava uma dor, das mais profundas, das mais primordiais. Não tinha a ver com nada, esta dor, mas ao mesmo tempo, tinha a ver com tudo, e tudo a compunha: o vazio, o céu nublado, as folhas secas, eu, você, todas as pessoas e todas as histórias, todos os começos e todos os fins, tudo isso se acumulando dentro dela: e ela achava que explodiria, cedo ou tarde, porque não era humanamente possível alguém abrigar toda a melancolia.

Mais à frente, no meio de um canteiro da praça, havia um passarinho morto. Pequeno, muito delicado, que deveria ter vivido muito pouco, pois parecia ainda jovem. As penas marrons estavam pálidas e os olhinhos fechados. Parecia em paz. Ela chegou com cuidado, na ponta dos pés, com um ridículo pensamento de que poderia acordá-lo ou assustá-lo se chegasse com muita rudeza perto dele. O pegou com um carinho surpreendente nas mãos - sempre a deixava admirada como, apesar de completamente desacreditada pela vida, ainda assim era capaz de importar-se. Aliás, talvez fosse este exatamente o problema - ela sempre se importava demais. E sempre via as sutilezas. E era sempre doloridamente lúcida sobre tudo. Acariciou as penas, a pequena cabeça, e mesmo beijou o corpo do pequeno passarinho.

Ela sentiu alívio por ele. Um profundo e libertador alívio.

Ele era livre como ela jamais seria: não por que fosse pássaro e pudesse voar, mas porque tinha ido embora dali.

Tudo o que ela mais queria: ir embora.

"É chegado o momento de encarar as horas." - Virginia Woolf

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2 comentários

  1. "sentada no banco de uma praça vazia, lutando para não afogar-se". É isso o que eu faço, sempre.

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