This one's optimistic

- Se eu morresse hoje, eu sentiria que vivi intensamente. Que vivi tudo o que eu tinha. Que não tenho arrependimentos nem traumas. Fui ...


- Se eu morresse hoje, eu sentiria que vivi intensamente. Que vivi tudo o que eu tinha. Que não tenho arrependimentos nem traumas. Fui feliz. Fui sim.

Olhei para minha vó, após ela dizer essas palavras, e desejei que o mundo parasse de girar por alguns segundos. A sua frase ficou suspensa pela cozinha, as vírgulas e acentos pairando no ar, como floquinhos de poeira que flutuam contra a luz. Eu olhava para ela, que bebia calmamente seu café depois de ter feito tal declaração, e de tê-la feito de uma forma tão espontânea e tão estranha à ela, sempre fechada e silenciosa. Era uma cena em câmera lenta: reparei nos pequenos cachos de seu cabelo, já brancos há muitos anos, e senti uma inacreditável admiração por ela. Reparei em suas mãos segurando a xícara, e foi como se eu a estivesse vendo pela primeira vez. E saber que ela tinha sido feliz foi como sentir a minha própria felicidade.

Congelei aquela cena dentro de mim, e observei com calma cada palavra que ela disse. Revivi dentro de mim o olhar de contentamento que havia nela, e por alguns poucos segundos - mas extremamente preciosos - eu alcancei o coração dela, ela que me criou e que depositou em mim muito do que eu sou hoje. E de repente me dei conta que havia presenciado aquelas cenas que carregamos dentro de nós para sempre, e a lembramos e lembramos e lembramos, sem que a emoção dela nunca se gaste. Ah, aquela cena ficou no meu coração, e agora faz parte de mim.

- Eu quero viver de tal forma a dizer o mesmo que você.
Dei a volta ao redor da mesa e a abracei. 

Abracei minha vó e seu passado. 
Mas também abracei o meu presente.
Porque eu estou construindo hoje a minha história. Não construo ela amanhã. E de repente, percebi que, se eu morresse naquele instante, eu também me sentiria feliz: não uma felicidade antiga e fácil ou calma - como a dela - mas sim, uma felicidade recente e fresca e árdua, abrindo dentro da escuridão um jardim de flores de um tom de rosa vivo e brilhante. 
Nunca direi como ela, que não tive traumas. Pois os tenho. Eu direi que lutei contra eles, e fui feliz mesmo assim. Mais que isso, direi que tive uma vida de luta contra mim mesma. Que eu fui meu pior inimigo.

"(...) É por isso que precisamos (...) seguir em frente, sem parar de caminhar.
- Mas caminhar em que sentido? - continuou perguntando a jovem.
- No sentido de habitar o silêncio." (Susanna Tamaro)

Direi que fui capaz disso. Que eliminei de mim o grito e o choro. Que houve silêncio, no final das contas.

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